4 MESES SEM IR À ESCOLA: E AGORA??? Dicas básicas de sobrevivência, para pais, filhos e professores.

Olá, espero que aí estejam todos bem. A ti, que estás a ler este artigo porque tens filhos/as em casa ou porque és professor/a e tens alunos/as em casa, esta semana vou começar com uma pergunta, que de certa forma também pode ser uma provocação: o que seria diferente na tua vida se tivesses tido menos quatro meses de matéria na escola? Pensa bem nesta resposta, antes de dares por ti em pânico com o que vai acontecer aos teus filhos/as ou alunos/as porque o ano letivo teve esta interrupção inesperada.

É que ultimamente tenho tido a sensação que além do medo que nos habita a todos devido a esta pandemia, ainda andamos, nós educadores (sejamos pais, mães, avós, cuidadores ou professores) stressados e quase em burnout pela quantidade de adaptações e novas exigências que estão implicadas nesta fase das nossas vidas.

E não é para menos. Grande parte das famílias estarão neste momento ou em teletrabalho, ou em serviço, a arriscar a própria vida. Algumas estarão até privadas do convívio com os filhos/as, pelas profissões de risco que desempenham em nome do bem comum.

Já para não falar das crianças e jovens, que de um momento para o outro, ficaram privados/as não só da possibilidade de poderem estudar presencialmente com alguém que está capacitado para os instruir nas competências que é suposto adquirirem através do sistema educativo, mas também dos espaços de recreio e convívio, tão importantes para a manutenção da sua saúde mental, pelas competências sociais e emocionais que se desenvolvem só por estar com outros seres humanos numa situação de convivência.

Então, estamos todos a adaptar-nos, verdade? Pais e mães, filhos/as, avós, tios/as, professores/as, etc. Estamos a reaprender a estar todos no mesmo espaço, durante todo o dia. É uma espécie de Big Brother, só que sem direito a nomeações nem a fama. Estamos 24 sobre 24 horas confinados à presença no mesmo espaço. E não é só isto. Com mil olhos e mil cuidados, não vá o inimigo entrar-nos pelo lar adentro nos nossos sapatos, comida ou patas do cão que ainda pode ir à rua. E não acaba por aqui: muitas famílias estarão já neste momento a debater-se com a infeção (como doentes ou prestadores de cuidados) e muitas outras e também as primeiras, a debater-se com a falta de recursos. E não me refiro só à questão financeira (verdadeiramente preocupante para muitos), mas também a outros recursos que nos vão falhando, aqui e acolá, à medida que os dias passam e se torna cada vez mais desafiante a convivência – estou a falar de coragem, de ânimo, de compaixão, paciência e de ainda mais paciência.

Estamos a viver uma situação desconhecida, e o desconhecido é só o maior medo dos seres humanos. Estamos todos no mesmo barco, ouvimos e lemos agora com muita frequência. E é verdade, estamos mesmo. De uma forma ou de outra, estamos em sofrimento.

E relativamente a esta situação das crianças não irem à escola, podemos estar todos em sofrimento por variados motivos:

– porque somos professores/as e queremos dar o nosso melhor, cumprir as orientações do ministério da educação e não sabemos ou temos como;

– porque somos professores/as e também nós somos pais com crianças e jovens em casa a precisar da nossa atenção enquanto pais e acompanhantes do ensino à distância;

– porque somos pais, mães ou encarregados/as de educação e não temos meios para aceder à internet ou estamos a sentir dificuldades em aceder a ela com todos os membros da casa a usarem-na em simultâneo;

– porque somos pais, mães ou encarregados/as de educação e não temos conhecimentos para acompanhar ou explicar determinados conteúdos aos filhos (não sabemos explicar as frações ou o a filosofia sufista);

– porque somos pais, mães ou encarregados/as de educação e não temos disponibilidade para acompanhar ou explicar determinados conteúdos aos filhos, porque estamos também nós em teletrabalho ou no exercício da nossa profissão;

– porque os nossos filhos não têm ainda autonomia ou destreza para acompanhar a catadupa de exercícios que chegam por email (e às vezes nem computador ou impressora têm disponíveis);

– porque os nossos filhos estão a enfrentar dificuldades em aceder a plataformas digitais que estão também sobrecarregadas e com difícil navegação;

– porque os nossos filhos têm necessidades educativas especiais e necessitam de métodos e técnicas pedagógicas adequadas;

– porque com tudo isto, estamos permanente e constantemente no “modo fazer”, e com a sensação que não nos conseguimos dedicar a nada com a atenção ou concentração devida, o que nos coloca num estado de stress ainda maior;

– porque com tudo isto, pouco tempo nos sobra para atividades de lazer, descanso ou de simples investimento em brincar com os nossos filhos.

E estou certa que não esgotei a lista (que já vai extensa) de motivos pelos quais continuaremos a sofrer mais com esta tentativa de substituirmos a escola e levarmos a cabo o cumprimento dos já extensos (na minha opinião) conteúdos programáticos definidos pelo ministério da educação, qual aprendiz de marinheiro que se atira ao mar para dobrar o cabo das tormentas.

Então, como podemos sofrer menos com esta situação nova, desafiante e exigente? Aqui ficam algumas reflexões para que todos possamos manter a nossa sanidade mental.

Reflete séria e pausadamente no que seria da tua vida hoje diferente, caso no teu tempo de escola teres ficado 4 meses impedido/a de a frequentar. Poderá ajudar-te a distinguir o essencial do acessório: achas que seriam realmente os conteúdos programáticos que não deste naquela altura que te fariam diferença agora, ou a seria a própria experiência de isolamento social o que marcaria as diferenças que supões que terias hoje na tua vida?

Tenta agora colocar-te na posição dos teus filhos/os ou alunos/as: o que é mais importante neste momento? Com todos estes desafios, será que podes optar por criar uma rotina flexível e adequada às necessidades de todos? É importante que as crianças possam ter momentos de aprendizagem e estudo, claro. E também é importante que possam conectar-se às famílias em momentos de lazer e descanso, pois não nos podemos esquecer que perderam também eles o contacto com os seus amigos/as, tal como tu e eu.

O que precisas tu neste momento de garantir na tua rotina diária para que possas estar bem? Será que podes aliviar um pouco a carga? Neste momento, prefere a compaixão à exigência. Será mais útil estares conectado/a às tuas necessidades para que as possas comunicar e/ou satisfazer do que propriamente teres imensos objetivos concretos a atingir. Quais são os teus valores, aquilo que realmente são pedras basilares do teu bem-estar? Escreve-as num papel e depois põe em ação o que tens de fazer para que essas estejam garantidas em primeiro lugar.

Tira um tempinho do dia só para ti. Nem que sejam 10 minutos, se não conseguires mais neste momento. Consegues? Dedica esse tempo ao teu autocuidado, vais-te sentir melhor e ter mais energia e paciência para os outros.

Sempre que possível, liberta alguma energia, pondo o corpo em movimento – isso vai ajudar-te a relaxar e a ganhares mais energia ainda.

Dedica tempo a estares com os teus filhos/alunos com a intenção de alimentares a relação que tens com eles: podes fazer isso brincando, ou mostrando interesse através da escuta ativa.

E finalmente, cultiva as atitudes de Mindfulness  – podes ler aqui.

Penso que esta é uma excelente oportunidade para introduzirmos mudanças que são importantes na nossa vida. Assim o são todas as crises – oportunidades de crescimento e desenvolvimento. Para todos os afetados por ela. Quem sabe se o próprio ministério da educação não aproveita para repensar agora a quantidade de conteúdos programáticos, aliviando a carga a alunos/as e a professores/as, que já antes desta pandemia acusavam cansaço e stress para atingir os padrões impostos? Que excelente oportunidade de reestruturar os currículos agora, que as escolas estão paradas. Haverá mais capacidade técnica para levar a cabo uma reforma que se impõe agora, para que possamos todos voltar à normalidade um destes dias, com alegria de viver e não com stress de conteúdos acumulados.

E tudo isto me faz lembrar a metáfora das pedras na garrafa. Desconheço o autor, mas a mensagem é para mim tão poderosa que quero partilhar contigo, contando-ta da melhor forma que consigo. Então reza assim, se não me falha a memória: um certo professor quis um dia dar uma aula sobre a gestão do tempo aos seus alunos. Então, ele pegou numa garrafa de vidro e gargalo largo, e começou a colocar nela grandes pedras, até ao cimo da garrafa. Perguntou então aos alunos “esta garrafa está cheia?”, ao que eles responderam que sim. Então, o professor pegou em pedras pequenas e agitando a garrafa para que as pequenas pedras passassem pelos espaços deixados pelas grandes, encheu a garrafa até ao cimo, repetindo a pergunta “e agora, está cheia”. Os alunos, após uma pequena pausa, responderam “sim, agora está cheia”. E o professor pegou em areia, começando a vertê-la para dentro da garrafa. A areia, passando pelos espaços vazios, foi entrando e acumulando, chegando ao cimo da garrafa. O professor voltou a perguntar se a garrafa estaria agora cheia, e os alunos, embora mais desconfiados, responderam “sim, agora está mesmo cheia, sem dúvida”. O professor começa então a despejar água para dentro da garrafa, até esta verter a primeira gota. Faz-se silêncio. O professor questiona então os alunos sobre o que aprenderam em relação à gestão do tempo com esta metáfora da garrafa. Há um aluno que responde “esta experiência mostra que, quando temos muita vontade de incluir algo no nosso tempo, conseguimos arranjar sempre um espacinho”. O professor agradeceu ao aluno a sua observação, e concluiu a aula dizendo “esta experiência mostra-nos que, se não colocarmos as pedras grandes em primeiro lugar, nunca mais temos espaço para as colocar a seguir. Quais são as pedras grandes da vossa vida?”.

Então é isto que te queria dizer. Encontra as tuas “pedras grandes”, que são os teus valores e coloca-as em primeiro lugar. Fica consciente deles e age em congruência com essas tuas intenções, que o resto vem a seguir. Boa semana, haja saúde 😊

Se te fez sentido o que leste, ou conheces alguém a quem possa ajudar, partilhar este artigo nas tuas redes sociais. E vai passando por cá. Todas as semanas vou falar-te de assuntos que te podem interessar.

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Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
Parentalidade Positiva e Consciente  
www.mindfulbe.pt
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