ACEITAS OU RENDES-TE? Sabes distinguir aceitação e resignação?

Olá, estimo que te encontres bem. Neste artigo, quero falar-te sobre algo que noto que é muito fácil confundirmos, quando estamos menos conscientes: aceitação, luta e resignação. Quando falo sobre aceitação, noto que muitas vezes a resposta é “Então mas eu tenho de aceitar tudo? Isto para mim é inaceitável”. E quando esta pergunta surge, é sinal que está a haver uma confusão entre aceitação e resignação. É um pouco como confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira… ou como confundir o mapa com o território… são coisas completamente distintas, mas podemos facilmente cair na ilusão de que são o mesmo. Contudo, se o que pretendes é viajar daqui para o Japão, de nada te serve ficares a olhar para o mapa, certo? Terás mesmo de te pôr a caminho. E sim, claro que podes ter visto o caminho no mapa antes de ires…

 

Então, o que significa aceitar?

A aceitação é uma das 7 atitudes de Mindfulness que te falei num artigo anterior  e tem a ver com a capacidade de observar as coisas tal como elas são. Não se trata de gostar que elas sejam como são, nem de concordar com o que está a acontecer. Trata-se da consciência clara do que está a acontecer, independentemente dos juízos ou histórias que a mente faz acerca disso. Assim, aceitar tem a ver com a capacidade de observar e descrever as coisas tal como elas são, com equanimidade, sem julgamento.

Quando não aceitas o que está a acontecer, provavelmente estarás ou a debater-te com o que é, resistindo e gastando imensa energia com isso, ou estás a resignar-te, a submeter-te ao que está a acontecer, de forma passiva.

Ora, nem uma atitude nem a outra são as escolhas mais indicadas se aquilo que pretendes é introduzir alguma mudança no que está a acontecer.

E sim, só podes mudar aquilo que aceitas. Como assim?

Repara que se te renderes, estás apenas a submeter-te e as coisas vão continuar muito provavelmente o seu rumo natural, sem a tua intervenção. Sem quereres, acabaste de decidir não agir, que também é uma decisão. Resignas-te (ou rendes-te, ou submetes-te) quando dizes para ti “que remédio, tenho que aceitar que isto é assim mesmo”

Quando te submetes, resignas-te e, portanto, só contando com a sorte (que depende de fatores externos, que por outro lado, não dependem de ti) é que as coisas vão mudar no sentido que tu gostarias que mudassem. E provavelmente, enquanto isso não acontece (se é que vai acontecer), continuas a sentir-te triste e miserável. Podes até entrar numa atitude de autocomiseração, que só retroalimenta a estagnação na tua vida.

Mas claro, que também podes ter decidido resistir ou lutar. E nesse caso, repara como estás a gastar imensa energia a tentar lutar com os factos, forçando a situação a ser como desejas, vives numa tensão que só gera mais tensão quando percebes que não podes forçar algo a ser o que não é.

É por isso mesmo que só quando aceitas consegues aceder mais facilmente a recursos que te permitem agir no sentido da mudança. Parece paradoxal, mas quanto mais resistes, mais o que queres evitar persiste, porque te focas no que não queres em vez de te focares no que é, que é o que te vai permitir fazer escolhas conscientes.

Além disso, é como a conhecida metáfora das ondas: numa praia, podes observar que o mar tem diferentes ondas, de diferentes tamanhos, que tu não controlas. Não é por tu desejares ou gostares que o mar tenha mais ou menos ondas, e que elas sejam mais ou menos fortes, que isso vai acontecer, certo? Mas se te limitares a observar que é isso que está a acontecer, talvez possas decidir melhor o que queres fazer em relação às ondas, ondas essas que não podes controlar. As ondas são os teus pensamentos e as tuas emoções. Podes não as controlar, mas podes observá-las, descrevê-las, reparar que elas existem e depois então decidir o que queres fazer em relação a elas: podes aproveitá-las ou não, mas não podes impedi-las. Assim é na tua mente: não podes impedir os teus pensamentos e emoções de irem e virem, mas podes observá-los e ter consciência de que apareceram, para poderes decidir o que vais fazer quanto a isso.

Então e na vida real? É a mesma coisa. Imagina que estás na seguinte situação: tens um relatório para terminar e entregar até amanhã. Mas não te apetece mesmo nada fazeres essa tarefa, sobretudo porque hoje está um dia magnífico e o que querias mesmo era ir passear e aproveitar o dia de outra forma. Por outro lado, já não é o primeiro relatório que fazes e sabes que vai ser muito penoso para ti, uma verdadeira chatice. Na realidade não sabes, apenas esperas, pois ainda não o fizeste. Mas tens uma expectativa, baseada na tua experiência passada de que vai ser uma chatice. Olha lá o que está a acontecer: estás a prever o futuro com base no passado, e até já estás a sofrer e tudo, mas ainda nem começaste a fazer o relatório.

A questão é: só podes estar em aceitação quando estás no momento presente, a observar o que se está a passar contigo nessa situação, no aqui e agora. Quando estás com a tua mente no passado ou no futuro, não podes estar em aceitação.

Nesta situação, resignares-te seria algo deste tipo: pronto, que remédio, lá vou eu ter de fazer o maldito relatório, em vez de ir aproveitar esta tarde magnífica para passear. Consegues sentir a tonalidade afetiva da resignação? Não é lá muito agradável, pois não? Mas se é isso que está a acontecer comigo, protestas tu! Não quero fazer o relatório, mas tenho de o fazer! Como aceitar o inaceitável? Não gosto de fazer esta tarefa, não quero fazer esta tarefa.

A aceitação significa apenas estares consciente dessas “ondas” que te surgiram quando soubeste que tinhas de fazer e entregar o relatório. Ou seja, aceitar não significa que te vai apetecer fazer o relatório, nem sequer que vais gostar de o fazer. Aceitar significa observares que pensamentos te surgiram (por exemplo, “que seca ter de fazer isto agora”), bem como as emoções que surgem no teu corpo (por exemplo, irritação). E a seguir, podes decidir o que vais fazer quanto a isso: se vais fazer uma parte agora, uma pausa entretanto para aproveitares a tarde e depois terminas, se vais fazer tudo agora, pois preferes terminar a tarefa para depois ires passear mais tarde, ou se vais mesmo aproveitar a tarde agora para ganhares vitalidade para depois fazeres o relatório (ou ainda se não o vais fazer e preferes a consequência disso).

A aceitação abre o caminho para que possas tomar decisões conscientes, que se encontrem ao serviço dos teus valores, daquilo que é importante para ti. Pelo contrário, a resignação pode até levar-te a tomar a mesma decisão que tomarias numa atitude de aceitação, mas mesmo que assim fosse, sem dúvida que com maior sofrimento. E menos responsabilidade pessoal. E assumir responsabilidade pessoal é muito, mas mesmo muito importante para que te tornes o/a argumentista e realizador/a da tua vida, em vez que apenas teres um papel de ator secundário.

Espero que este artigo te possa ser útil. Se tiveres questões, deixa aqui nos comentários.

Vai passando por cá. Vou falar-te mais sobre este e outros assuntos que te podem interessar.

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Até breve, boa semana!

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Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
Parentalidade Positiva e Consciente  
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