BRINCAR PARA AMAR: O MOTIVO PARA BRINCARES COM O TEU FILHO.

Olá, chegou o Verão e com ele chegaram também as férias grandes dos miúdos e de (alguns) graúdos. O tempo livre dos horários e tarefas escolares trazem consigo um outro desafio: o que fazer com tanto tempo? Se és aproximadamente da minha geração, também deves ter ouvido inúmeras vezes, tal como eu ouvi: “primeiro os deveres, depois a brincadeira”. Por vezes, tenho até a impressão que para alguns adultos, a brincadeira equivale a um “não fazer nada” – reparo nisto quando ouço comentários de adultos dirigidos a crianças, num tom sério (e às vezes irritado) – “Tu também só pensas em brincar! Assim não pode ser! Tens de estudar para seres alguém na vida” – também já os ouviste e/ou deste por ti a proferi-los, verdade?

No entanto, pedagogos, educadores e psicólogos são unânimes em considerar que a brincadeira é fundamental e imprescindível para o desenvolvimento social, emocional, físico e cognitivo da criança. Trocado por miúdos, pode-se dizer que brincar é o trabalho da criança. Assim sendo, não há porque fazer um binómio entre brincadeira e aprendizagem, já que a aprendizagem, sobretudo na infância, se dá privilegiadamente através da brincadeira. Quando acreditamos que a criança para aprender tem de parar de brincar primeiro, já temos meio caminho andado para usarmos estratégias pouco potenciadoras da aprendizagem, e porquê? Simplesmente porque adotamos estratégias mais expositivas e centradas no educador como transmissor, em vez de aproveitarmos o enorme potencial de motivação intrínseca que existe já na criança. 

De facto, a criança é um ser humano que se encontra num período de desenvolvimento por excelência – a infância – cujo potencial pode e deve ser aproveitado pelos pais e restantes educadores da forma mais respeitosa das suas necessidades desenvolvimentais: brincando. 

E por variadíssimos motivos que não é minha intenção abordar hoje, a realidade é que as crianças cada vez brincam menos. Mesmo aquelas (ou talvez sobretudo aquelas) que têm o seu tempo extraescolar preenchido com atividades de ocupação de tempos livres ou atividades de enriquecimento curricular, que não raras vezes são aproveitados como mais um tempo em que as crianças estão sentadas a realizar tarefas escolares. Hoje em dia, na sociedade em que vivemos, rara será a criança que sente ter tempo livre. Os seus horários obedecem a rotinas exigentes, tão reveladoras do nosso estilo de vida adulta, em pouco ou nada adaptados às necessidades e interesses da criança. Talvez por isso mesmo nos deparamos com crianças cujo comportamento e agitação lá nos vão indicando que algo não está bem. Na escola, trabalham imenso e os recreios são cheios de regras e proteções para que ninguém se magoe: correr, trepar, lutar, são muitas vezes vistas como atividades radicais, recheadas de perigos. Em casa, no pouco tempo que lá passam por dia, há rotinas importantes a cumprir antes que chegue a hora de ir para a cama: jantar, tomar banho, fazer os TPC’s (independentemente da ordem). Então e brincar? Lá fora é perigoso, sobretudo se for à noite. Se a criança não tem irmãos ou vizinhos de idades aproximadas, restam-lhe duas hipóteses: brincar sozinha ou brincar com os pais. Pais esses (nós) tantas vezes exaustos e desejosos do momento em que as tarefas vão terminar para podermos descansar. Também esses pais (que somos nós) esquecem(os) que a brincadeira é essencial. E para nós, que somos pais, nem sequer é só porque sim, porque apetece. É porque (e agora prepara-te porque foi para te dizer isto que escrevi este texto) a brincadeira com os teus filhos é provavelmente a melhor forma que tens ao teu dispor (e ainda por cima gratuitamente) para desenvolveres uma ligação de vinculação ou conexão através da qual tu e os teus filhos se sentem seguros, tranquilos e motivados para essa relação. É através da brincadeira que tu vais conseguir ter a relação de conexão que desejas ter. E essa relação não vai ser boa apenas para ti; ela vai ser maravilhosa e fundamental para que os teus filhos possam desenvolver-se e aprenderem melhor. Sabias que o cérebro de uma criança que não se sente segura na relação, que não sente ter atenção positiva suficiente por parte dos seus cuidadores, que não sente ser amada, é um cérebro que está muitas vezes no modo de ameaça? E que isso significa que as respostas ou comportamentos que tem ao seu dispor incluem lutar, fugir ou congelar? Um cérebro nesse modo não tem ativados os circuitos do amor nem da aprendizagem

Então, brincar para amar. É um dos principais lemas que podes adotar se pretendes ter com os teus filhos uma educação e relação baseada nos princípios da disciplina positiva – que não defende nenhuma forma de violência ou punição. 

Há pelo menos duas resistências que poderás encontrar na tua intenção de brincares com os teus filhos:

1 – “Agora não”. Agora não dá, diz-te a tua cabeça, que rápida e automaticamente vai encontrar um sem fim de coisas para fazer primeiro. Se ficares à espera de ter tudo terminado para brincares com os teus filhos, o meu palpite é que não o vais fazer. Se este pensamento te ocorrer, sugiro que possas refletir um pouco sobre a premissa, ou crença que lhe subjaz. Não será algo do género “brincar é a coisa menos importante que tenho para fazer agora”? Pensa nisso.

2 – “Vou brincar a quê?”. Até venceste a barreira número 1, arranjaste tempo e disponibilidade para brincares com os teus filhos. E de repente pode acontecer que não saibas o que fazer, ou então que estejas a encarar esse momento como mais uma tarefa que “tens de” cumprir antes que acabe o dia. Sugiro que observes com curiosidade o que se está a passar contigo. E depois relaxa, não tens de ser tu a decidir isso. E que tal deixares-te guiar pela criança? Olha que se estivermos a falar de um final de dia útil da semana, os teus filhos já ouviram inúmeras vezes o que tinham de fazer naqueles momentos. Por isso, esta é uma excelente janela de oportunidade para a criança ter a perceção de controle na sua vida, para sentir que pode ser ela a decidir. É um momento para a sua autonomização. E tu, deixa-te levar. Brinca apenas com a intenção de estares lá, de alma e coração, a passar esse tempo de qualidade com os teus filhos. Desfruta. Aproveita. Abre-te à experiência de estar a brincar com todos os sentidos que tens (visão, olfato, tato, etc.) e não só a cabeça com todos os pensamentos das n coisas que ainda tens por fazer. Estás provavelmente no desempenho da função mais importante que assumiste na tua vida ao teres os teus filhos. Então permite-te ter consciência desse momento presente, e cada vez que notares a tua cabeça a fugir para o passado ou para o futuro, respira conscientemente e presta atenção às dicas que os teus filhos estão a dar do que querem de ti nesse momento. Usa as competências da tua prática de Mindfulness ao serviço da parentalidade. 

E pratica, que é como quem diz, brinca muito. Ao faz de conta, às construções, às casinhas, às lutas, às escondidas e até aos videojogos, não importa. Desde que brinques. Diferentes brincadeiras ou jogos podem desenvolver mais acentuadamente a parte cognitiva, motora, social ou emocional, claro e poderás querer pensar também nessa parte, mais pedagógica. Contudo, sendo tu uma mãe ou um pai, mais importante do que os objetivos pedagógicos ou que tipo de competências que determinadas brincadeiras ou jogos vão permitir trabalhar, o foco aqui é que quando brincas com os teus filhos estás a promover conexão. O teu cérebro e o dos teus filhos fica disponível para amar e aprender, e ambos ficam também com uma sensação de bem-estar, própria de quem está a sentir-se ligado. Todos os dias, nem que sejam 15 minutos, brinca com os teus filhos, com total disponibilidade, abertura e curiosidade. E depois partilha com os teus amigos e família o que notas na relação com os miúdos. 

Desejo-vos umas ótimas férias (se for o caso) e um verão muito divertido em família. 

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Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
Parentalidade Positiva e Consciente  
www.mindfulbe.pt
sonia.araujo@mindfulbe.pt

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