O AMOR E O SEXO EM TEMPOS DE COVID-19

Em 1985 foi publicado o livro do escritor colombiano vencedor do Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, “O Amor em Tempos de Cólera”. O romance conta a história de amor de Florentino e Fermina, que passam 53 anos sem quase nenhum contacto, e 2 anos a corresponderem-se por carta.

É possível amar à distância? Sabemos hoje que a proximidade física, e nomeadamente o toque, promovem a produção da oxitocina, a famosa hormona do amor. Mas os tempos que vivemos atualmente, nomeadamente o perigo eminente da propagação do COVID-19 numa altura em que temos profissionais de saúde a acusarem já sinais de burnout, e um sistema nacional de saúde com recursos insuficientes para fazer face a esta pandemia, fizeram-me recordar estes dias a história de amor entre Florentino e Fermina.

Numa época em que sexo e sexualidade estão banalizados, nos entram pela casa adentro diariamente, quer pelas imagens de corpos semi ou totalmente despidos, atraentes e sem defeitos com que somos bombardeados pelo marketing e publicidade, quer pelos modelos de comportamentos sexuais que vemos em filmes e séries de renome, enfrentamos agora um desafio acrescido.

A acrescentar a esta banalização gratuita do sexo, continuamos a ter imensos pudores e preconceitos na hora de falar em sexo e sexualidade de forma científica e pedagogicamente correta, adiando a educação sexual dos nossos filhos para a mal-afamada adolescência ou esperando que a escola nos substitua enquanto educadores a este nível, como se tal fosse possível. E esse não é o desafio acrescido a que me refiro. Este, de negar e/ou evitar a educação sexual a todo o custo, já é velhinho e bem conhecido por todos (até pelas escolas). 

O desafio acrescido que vivemos agora, que vai para além deste duplo padrão ou dupla moral sexual, é o de como lidarmos com o sexo e o amor agora que todos os dias somos bombardeados com a necessidade de mantermos isolamento social face ao risco iminente de contaminação por COVID-19.

E enquanto isto acontece, dou-me conta da enormidade de coisas que dávamos já por adquiridas, que estavam já em piloto automático, como por exemplo, cumprimentarmos alguém com um beijo, um abraço ou um aperto de mão. Ou simplesmente a naturalidade com que dizíamos aos nossos filhos para irem dar um beijinho ao avô (às vezes até em tom de ordem, mesmo sob pena de os estarmos a colocar numa situação de vulnerabilidade para o abuso sexual infantil – não necessariamente por causa do avô, claro, embora saibamos também que a maioria dos abusadores sexuais de crianças são alguém muito próximo ou familiar – mas sobretudo por não lhes autorizarmos essa decisão tão importante de respeitar o seu corpo e a sua intimidade).

E agora, ironia das ironias, damos por nós a dizer-lhes não beijes, não abraces, não toques, nem sequer te aproximes. E como estamos nós adultos a lidar com esta ausência de toque? Cumprimos as recomendações para mantermos todos a salvo (a nós e a quem amamos) ou não resistimos e há pessoas com quem não evitamos o toque?

São tempos difíceis, estes, em que se impõe que aprendamos a manifestar o amor e o cuidado através de outros comportamentos. E talvez possamos concluir, entre outras aprendizagens importantes de desenvolvimento pessoal, que podemos amar o outro através de milhares de outros gestos que mostrem o nosso cuidado. Não resisto a citar agora Saint-Exupéry “foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”, famosa frase do seu livro “O Principezinho”.

Mas e quando estamos a falar de outras facetas do amor, do amor erótico ou simplesmente do desejo e atração sexual? Já não estamos perante uma ameaça que possa ser combatida com o uso de preservativos. Estamos num cenário em que uma simples partícula de saliva pode transmitir o vírus. Para adotarmos comportamentos seguros a nível sexual parece que teremos de optar pela abstinência sexual. 

Será? Conseguiremos nós, na nossa imensa criatividade humana, arranjar alternativas sexuais que nos permitam continuar a desfrutar desta importante área da vida, com todos os benefícios que ela traz não só à nossa saúde física e mental, mas também ao aprofundamento de laços de intimidade na relação, seja ela como for e independentemente do seu nível de compromisso.

E que tal começarmos por nos despirmos de pré-conceitos e hábitos e desconstruirmos a ideia que temos de abstinência sexual? A vivência do sexo não se resume ao coito.  É época de alimentares o erotismo. É época de cultivar com curiosidade, abertura e aceitação, outras de formas de estar e sentir a sexualidade, o amor e o sexo. Podes fazer isso através de fantasias ou brinquedos sexuais, através do autoconhecimento do teu corpo pela masturbação, pelo consumo de literatura ou filmes eróticos. Há inúmeras formas de poderes continuar a alimentar o desejo sexual, e algumas poderão trazer-te até muitos ganhos, sobretudo se tu estás numa relação duradoura e monogâmica. Quebrem-se as rotinas sexuais e invente-se um novo sexo, para já restrito ao toque. Estimulem-se formas já esquecidas de nos relacionarmos, que possamos cultivar novamente a sedução e o enamoramento. Escreve cartas, deixa bilhetes sugestivos, (re)inventa-te. E estimula-te, lembra-te que a vivência de uma sexualidade plena irá também ter um papel muito importante na regulação do teu humor durante este desafio do isolamento social que vivemos atualmente.

Esta é uma oportunidade de (re)aprender a amar e a estar em relacionamentos íntimos e sexuais. Que possas ficar saudável e feliz e boa semana!

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Até breve, boa semana! 

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Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
Parentalidade Positiva e Consciente  
www.mindfulbe.pt
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