O Meu Filho é Homossexual. E agora?

Esta é uma questão que assombra muitos pais, acredita. 

Por um lado, porque a homossexualidade é mais frequente do que aquilo que se possa pensar à partida: estima-se que aproximadamente 3% das pessoas terão uma orientação homo ou bissexual, de acordo com o relatório da OCDE relativo ao estudo que envolveu 14 países (Society at a Glance 2019). 

Por outro lado, porque ainda somos (queiramos ou não) muito homofóbicos – o mesmo estudo coloca Portugal entre os países que se destacam pelos seus níveis de homofobia. 

E isto será verdadeiro também para os pais não homofóbicos ou que manifestem atitudes positivas perante pessoas LGBTQIA (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero, Queer, Intersexo e Assexuais), que apesar disso, se podem sentir tão discriminados quanto os filhos, ou temer que os filhos sejam alvo de discriminação e bullying, o que infelizmente, ainda é uma possibilidade nos dias que correm.

Então quero dizer-te que, se esta questão te consome, não estás sozinho/a, há muitos pais e mães a passarem pelo mesmo processo. E é natural que não seja fácil ou pacífico, muitas vezes a primeira coisa que acontece é a negação e daí até à almejada aceitação o caminho pode ser sinuoso e ter vários retornos ao ponto de partida. 

Se tens um/a filho/a homossexual (a partir de agora escrevo só no masculino uma questão de ser mais fácil escrita e leitura, mas também é válido para o feminino), lê até ao fim, espero conseguir ajudar-te no teu caminho para a aceitação necessária à relação de proximidade e confiança que imagino que queiras ter com as tuas crias.

 

O teu filho revelou-te que é homossexual

Se o teu filho te contou acerca da sua homossexualidade, há duas coisas que quero sublinhar: 

Está tudo bem com o teu filho, não há necessidade de mudar nada nele. A homossexualidade é uma orientação sexual tão saudável quanto a heterossexual. Embora nem sempre tenha sido vista assim, a OMS já retirou a homossexualidade da sua lista de doenças em 1990, fará em maio 31 anos. Assim, não há nada a reparar ou curar. A orientação sexual é o que é, não é uma escolha que se possa tomar. Por esse motivo, o melhor caminho para manteres uma conexão com o teu filho é também o único, que é aceitares o que está a acontecer. E aceitar não significa que gostes ou concordes, significa que és capaz de ver as coisas tal como elas são. Podes ler mais sobre aceitação nos artigos que escrevi anteriormente, aqui.

Ele está a pedir o teu apoio, quer manter uma ligação autêntica contigo, e sente que está preparado para o fazer. Este processo de “coming out” ou de assumir a sua orientação sexual perante os outros é frequentemente muito difícil para quem passa por ele, pelo medo da rejeição.

 

O teu filho não te revelou que é homossexual, mas tu “sabes” ou “desconfias”

Se o teu filho não te contou que é homossexual, mas tu sabes (espero que não por teres invadido a sua privacidade, acedendo às suas contas nas redes sociais ou ao telemóvel) ou desconfias, pela tua intuição ou pelo medo que sentes acerca dessa possibilidade, pode parecer-te menos bem o que te vou dizer, mas acredito que o melhor que podes fazer é dar espaço para que seja ele a contar-te, sem o pressionares

E olha que não estou a sugerir que abandones o assunto e finjas que não se passa nada, até porque não creio que a atitude de “avestruz” vá ajudar-te a ter uma relação de conexão ou confiança com o teu filho. 

O que podes fazer é ficar atento/a aos acontecimentos do dia-a-dia: uma novela, uma série, um filme, um vizinho ou o que for em que surja a questão da orientação sexual. Podes falar sobre isso com o teu filho, mostrando uma atitude de abertura e não julgamento (se achas que precisas de praticar, lê este artigo); dessa forma, ele irá perceber que a homossexualidade não é um assunto tabu em casa e que pode falar contigo acerca disso quando se sentir preparado – pois nem tudo tem a ver com a tua atitude parental, o teu filho também tem os seus medos e as suas crenças acerca de si próprio, dos outros e do mundo que o rodeia. 

Apesar de não controlares tudo e de não depender a 100% de ti que o teu filho te conte, há outra coisa que podes fazer, que é ficares muito atento ao discurso implícito que existe em casa e na família sobre homossexualidade: não raras vezes, esse assunto não é falado como os outros, mas existem “piadas” ou formas menos respeitadoras de falar sobre isso que fazem com que o teu filho tema ser rejeitado – por exemplo, alguém se referir às pessoas homossexuais como “maricas” ou “fufas” (ou termos ainda mais pejorativos) ou haver anedotas constantes em relação a este assunto; quando e se isso acontecer, toma posição e defende o respeito pela diversidade na vivência da sexualidade. Essa será mais uma atitude que o teu filho poderá observar em ti e que vai contribuir para que ele se sinta mais confiante em contar-te que é homossexual, ou que tem dúvidas acerca da sua orientação sexual.

Ah, só mais uma coisa, nada de concluir que se o teu filho não te contou é porque a culpa é tua, por teres feito algo errado. É verdade que ele pode não ter contado por ter medo da tua reação, mas esse medo pode vir dele e não de algo efetivo que tenhas feito para lhe mostrar que não aceitarias essa realidade. Só tu o podes saber, mas o facto de ele não te contar pode também só ter a ver com o tempo dele, que ele precisa para o seu próprio processo de aceitação.

 

O que podes estar a sentir como pai/mãe

Na realidade, podes estar a sentir tudo o que estiveres a sentir. Não há sentimentos certos ou errados, cada um tem os seus, e eles acontecem devido à tua interpretação da situação. Quero com isto dizer que vai depender das tuas crenças (que são pensamentos nos quais tu acreditas) e dos teus valores (que são crenças que tu valorizas) e claro, também o ambiente em que te inseres pode estar a desempenhar um papel importante – em princípio, será mais fácil ser homossexual (ou pai e mãe de alguém homossexual) numa cidade moderna do que numa aldeia pequena e envelhecida. 

Independentemente de tudo isto, há sentimentos que são frequentes nos pais com filhos homossexuais, nomeadamente:

Culpa. Verdade, os pais sentem muitas vezes culpa da orientação sexual dos filhos, por acharem que contribuíram para ela de alguma forma. Por exemplo, nos anos 90 era comum acreditar que os filhos de pais ausentes e mães com forte presença teriam maior propensão à homossexualidade. E apesar desta ideia carecer de dados empíricos que a corroborem, ainda há muita gente a pensar assim. Mas a verdade é que a culpa não é de ninguém, pois a orientação sexual não é uma escolha, e também não depende do estilo parental ou educacional. Além disso, e sobretudo, também não há motivo para sentir culpa de algo que não tem nada de errado.

Medo. O medo é uma emoção que os pais de pessoas homossexuais sentem com frequência. Medo de que os filhos não sejam saudáveis, medo que sejam vítimas de violência e outros medos que se relacionam com as expectativas ligadas a padrões culturais e de género (por exemplo, medo de não serem avós, ou medo que os filhos fiquem sozinhos, não constituam família). 

Tristeza. Vários pais sentem necessidade de fazer o luto daquilo que tinham idealizado como desejável para a vida dos filhos e para a sua, no papel familiar que lhes cabe. 

Vergonha e/ou repulsa. Pais com atitudes mais homofóbicas tendem a ver a homossexualidade dos filhos como indesejável ou repugnante e não raras vezes temem ser julgados pelos outros, pelo que tentam esconder a orientação sexual dos filhos e algumas vezes estes sentimentos resultam num corte ou afastamento do meio familiar, podendo até chegar à expulsão do filho de casa.

Raiva. Muitos pais ficam também zangados com a situação e relatam sentimentos de raiva e/ou injustiça, do tipo “porquê a mim, porquê o meu filho?”. 

Podem surgir outras emoções e sentimentos, ligados à forma como esta situação é interpretada. Assim, também há pais que podem aceitar e ficar tranquilos de que está tudo bem com o filho com maior facilidade que outros. Outros poderão viver momentos de choque e negação que se prolongam mais no tempo. 

 

As dúvidas que podes estar a ter e o que podes fazer acerca disso

Quando se tem dificuldade em aceitar a orientação homossexual como natural e saudável, ou quando não se tem muita informação acerca dos direitos das pessoas LGBTIQIA podem surgir dúvidas tais como: será que o meu filho vai ser promíscuo? será que vai poder casar? será que vai poder ter ou adotar filhos? Será que vai poder escolher a profissão que quer? E por aí em diante… O que podes fazer para tirares as tuas dúvidas e que estou certa que será muito positivo para te ajudar a lidar com esta questão é:

Informa-te – quando não sabes o suficiente acerca de algo, é natural teres mais preconceitos e dificuldades em aceitares o que for. Por isso, procura informação fidedigna. 

Fala com outros pais – existem grupos de pais que se debatem com a mesma dificuldade, tal como tu. Procura por grupos onde possas expor e/ou ouvir dúvidas e angústias, sucessos e processos na vivência de ter um filho homossexual. A AMPLOS (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género) faz esse trabalho há vários anos (espreita no site, clicando aqui).

Procura ajuda especializada – caso estejas em sofrimento e a não conseguir lidar, ou sentes que o teu dia-a-dia está a ser prejudicado, ou a relação com o teu filho está em perigo de desconexão, fica a saber que não estás sozinho/a; muitos pais e mães procuram ajuda nesta situação. Podes procurar um psicólogo, de preferência especialista em sexologia, para te ajudar a lidar com este processo.

 

O que o teu filho pode estar a sentir

Tal como tu, o teu filho pode estar também a passar por um mau bocado. Sentimentos de culpa, vergonha, medo ou mesmo repulsa podem estar a acontecer em catadupa. 

O mundo lá fora (de casa) nem sempre vai ser simpático, pacífico ou respeitador. Por isso, é natural que o teu filho já se tenha questionado se terá algum problema, podendo mesmo já acreditar nisso. Não tem, mas ter a certeza disso quando o mundo te diz que sim é muito desafiante, podes crer. 

Provavelmente, o teu filho tem medo da reação dos outros, e pode ter em especial da tua, pelo simples facto de que tu és muito especial para ele, porque és o seu pai ou a sua mãe. E sabes, todos os filhos querem agradar aos pais e quando a relação não está doente esforçam-se no sentido de o fazer. No limite, podem até deixar de viver as suas vidas e anularem-se, só para corresponderem às expectativas dos pais. E provavelmente, não é isso que queres, certo? Por muito que te agrade a ideia de o teu filho poder viver como heterossexual, acho que concordas comigo se te disser que isso não poderá acontecer se lhe custar a sua felicidade e saúde, que começa no respeito pela sua natureza.

Se o teu filho já está no processo do coming out, então ele está a ser corajoso. E olha que não há coragem sem medo, por isso ele precisa de ti.

 

O que o teu filho precisa que tu faças

Aquilo que o teu filho mais precisa é de saber que o amas incondicionalmente. Incondicionalmente

Podes não gostar da ideia de ele ser homossexual, mas ama-lo incondicionalmente, e dizes-lhe que está tudo bem. Que ele não te desiludiu nem tem problema algum. Que ele é maravilhoso tal como ele é. Que a orientação sexual não define a personalidade nem o carácter de ninguém, e por isso ele vai continuar a ser para ti a mesma pessoa que sempre foi. 

Ele precisa que lhe digas e sobretudo que lhe mostres que estás ali para ele. Para o que der e vier. Que o mundo lá fora até o pode tratar mal, mas em casa é o seu porto seguro. O colo, a calma, a segurança estão ali, em casa, contigo. 

E claro, se estás a ter dificuldades, podes falar com ele acerca delas. Ele vai saber, pois ele também está a passar por elas. O facto de seres honesto e te mostrares vulnerável só vai servir para que ele perceba que és humano (tal como ele é), e mais importante do que seres perfeito é seres pai/mãe por inteiro. 

O teu filho precisa que o ames, que o ouças, que o apoies, que estejas lá para limpar as lágrimas e lamber as feridas quando o mundo lá fora for cruel. E que lhe mostres um espelho da sua dignidade, amor-próprio e resiliência. 

 

O que não deves fazer

Ameaçar o teu filho ou castigá-lo: não vai mudar nada, a não ser piorar a tua relação com ele.

Envergonhá-lo ou culpá-lo, com insultos ou insinuações acerca do seu carácter (ou falta dele).

Silenciá-lo, recusando-te a falar sobre o assunto com ele.

Proibi-lo de se relacionar intimamente com algum parceiro.

Expulsar o teu filho de casa: vai vulnerabilizá-lo ainda mais para ser vítima de um mundo já bastante homofóbico por si só.

Tentar convencê-lo de que ainda não sabe a sua orientação sexual: se o teu filho te dissesse que namora com alguém de outro sexo, tu irias perguntar “tens a certeza? Mas já experimentaste estar com pessoas do mesmo sexo, para saberes se serás homossexual? Como podes ter a certeza de ser heterossexual se nunca experimentaste?”. Não ias, pois não? Então, também é descabido no caso do teu filho te dizer que é homossexual.

Levar o teu filho ao psicólogo, para ele se “tratar” ou mudar a sua orientação sexual: as alegadas “terapias” que o tentavam fazer têm décadas e são contranatura, motivo pelo qual estão proibidas pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. E se alguém te disser que o faz e vai resultar, não acredites. Não é possível mudar a orientação sexual de outra pessoa. Pensa em ti: tu mudarias a tua orientação sexual porque o “terapeuta” te diz que o deves fazer?

Atenção, nada contra levares o teu filho ao psicólogo. Ou ires também, ou ires com ele. Mas não para o “curar”, pois a homossexualidade não é uma doença, e por isso não precisa de cura. A homofobia sim, é sintoma de uma doença mais profunda: a da falta de respeito pela diversidade e natureza humana. Para procurar ajuda no caminho da aceitação, para que possa ter uma vida plena, para que possam manter um relacionamento saudável. 

Espero ter contribuído para que a tua visão sobre a homossexualidade do teu filho deixe de ser um bicho de sete cabeças. Caso tenhas dúvidas, deixa aqui nos comentários. E se conheceres alguém a quem este artigo possa interessar, por favor partilha. E já sabes, vai passando por cá, vou falando de temas que te podem interessar. 

 

Até breve, fica bem!

 

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    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
    www.mindfulbe.pt
    sonia.araujo@mindfulbe.pt

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