O SILÊNCIO DOS INOCENTES: Reconhecer Sinais de Abuso Sexual Infantil

Sabias que grande parte das crianças e jovens abusados/as sexualmente não contam a ninguém sobre o abuso? Pois, isso pode ser assustador, verdade? Também é verdade que grande parte dos pais e mães (não abusadores) julgam que se acontecesse aos seus filhos, estes lhes contariam. Mas não é isso que acontece. 

Grande parte das vezes, o abuso sexual infantil é perpetrado por pessoas muito próximas da criança, tais como familiares diretos e chegados (pais e avós incluídos), família alargada ou amigos da família. Ou seja, o abuso sexual infantil acontece muitas vezes a partir de pessoas presentes no dia-a-dia da criança, e com quem ela tem, muitas vezes, uma relação marcada pela dependência, autoridade e obediência. A ideia que as crianças são abusadas sexualmente por desconhecidos ou predadores sexuais, que as violam inesperadamente e recorrendo a força física são menos comuns, embora também seja uma possibilidade. 

No entanto, a esmagadora maioria das vezes, as crianças são abusadas sexualmente por pessoas que já conhecem, nas quais confiam e/ou dependem, e que iniciam o abuso de forma insidiosa e lenta, num processo de aliciamento que pode chegar a durar dois anos até efetivamente se consumar o abuso e são mais marcados pela manipulação psicológica do que pela imposição de força ou violência física. Assim, contrariamente ao que se possa pensar à primeira vista, em grande parte dos casos não há coito ou penetração no abuso, nem força física incluída. Existem antes, outros comportamentos igualmente abusivos, mas menos evidentes, tanto para a criança, que acaba até por se sentir culpada e a causa do abuso, como para efeitos de prova pericial, já que não deixam marcas – das físicas, claro, porque as emocionais já lá estão impressas. 

Mas hoje não vou falar-te sobre os diferentes tipos de comportamentos sexuais abusivos a crianças – isso ficará para outra oportunidade, tal como o aprofundamento do próprio processo de aliciamento e perfil do abusador sexual. 

Hoje quero falar-te sobre alguns sinais e indicadores presentes na criança abusada que podem alertar-te para o que está a acontecer, já que as vítimas tantas vezes mantêm o silêncio absoluto sobre o abuso – ou porque se consideram culpadas do mesmo, ou por estarem a ser manipuladas ou ameaçadas ou até mesmo por não perceberem que estão a ser vítimas de abuso sexual, apesar do sofrimento inerente ao mesmo.

 

Que crianças podem ser vítimas de abuso sexual?

Em primeiro lugar, quero dizer-te que qualquer criança pode ser vítima de abuso sexual. E também que este crime é mais frequente do que possas imaginar. Mas existem algumas características da criança que funcionam como fatores de risco para o abuso sexual, nomeadamente, o facto de serem mais novas, consumirem substâncias, serem vulneráveis do ponto de vista emocional, terem baixa autoestima, pouca literacia emocional e parcas competências emocionais, terem falta de informação sobre o corpo e a sexualidade (pobre ou inexistente educação sexual) e experiências sexuais precoces ou experiências anteriores de vitimação sexual. 

No entanto, volto a dizer, qualquer criança pode ser vítima de abuso sexual. 

E também é importante saberes que não são apenas as características da criança que atuam como fatores de risco para o abuso sexual. Também algumas características familiares e ambientais se podem assumir como fatores de risco, tais como: pertencer a uma família onde reina o modelo familiar patriarcal de cariz autoritário, ter problemas habitacionais ou socioeconómicos, a presença de um substituto paterno ou a mudança frequente de companheiro por parte dos progenitores, défice afetivo e emocional entre o pai/mãe e a criança, relações incestuosas entre outros membros da família ou relação conjugal conflituosa, punitividade em relação à comunicação sobre a sexualidade, isolamento social, entre outros (há muitos mais, não vou falar-te de todos). Mas nenhum por si só indica que a criança vai ser vítima de abuso. Quanto mais fatores de risco (individuais, familiares, sociais e comunitários), mais exponencial a probabilidade de abuso. 

 

Quais são então os sinais a que podes estar atento/a?

Como disse anteriormente, não é provável que a criança te vá contar que está a ser abusada sexualmente. Por isso, podes prestar atenção a alguns sinais/sintomas que podem indiciar abuso sexual infantil. Contudo, estes sinais devem ser sempre avaliados inseridos num contexto e em conjunto, pois isoladamente, são sinais inespecíficos, que podem estar associados a qualquer outro fator que esteja a perturbar a criança.

A curto/médio prazo, os sinais ou indicadores de abuso sexual podem ser: 

 – Sintomas físicos, que podem ser apurados por exame médico, tais como pruridos/dor/lesões genitais e/ou anais, infeção sexualmente transmissível e novas queixas somáticas da criança, principalmente a nível gastrointestinal.

– Sinais relacionais, em que a criança começa a demonstrar desconfiança, medo e hostilidade perante o abusador e os familiares.

– Sinais emocionais de ambivalência (tanto maior quanto o grau de proximidade e de significância afetiva do abusador), auto-culpabilização (muitas vezes induzida pelo abusador) e vergonha de si mesma, diminuição da autoestima, autoconfiança e autoeficácia, ansiedade e a tristeza.

– Sinais comportamentais, tais como abandono ou fuga do lar, frequentemente como forma última de pôr termo à situação, incontinência esfincteriana (enurese, encoprese), alterações do sono (terrores noturnos), do apetite (anorexia, bulimia) e descuido na aparência. Podem ainda verificar-se comportamentos de automutilação por não gostar do corpo e para evitamento do abuso, bem como comportamentos para-suicidas ou suicidas e ainda comportamentos aparentemente bizarros, tais como dormir com a roupa que se utilizou durante o dia (às vezes até com mais roupa), urinar deliberadamente na cama, destruir ou ocultar sinais de sexualidade manifesta no corpo, recusa em fazer ginástica ou recusa em voltar da escola para casa (se é em casa que se dá o abuso). 

 -Alterações associadas ao meio escolar, tais como dificuldades de concentração, atenção e memória, de aprendizagem, diminuição do rendimento escolar e/ou recusa em ir à escola.

– E finalmente, perturbações do desenvolvimento psicossexual, tais como conhecimentos desadequados/inapropriados para o seu estádio de desenvolvimento sobre aspetos sexuais, manifestos por utilização de uma linguagem, com conteúdos sexuais, desapropriada para a idade ou por curiosidade sexual excessiva, precocidade sexual e/ou agressão sexual de outras crianças, masturbação compulsiva, desenhos ou brincadeiras sexuais explícitas e condutas sedutoras com adultos. 

 

A longo prazo, os sinais ou indicadores de abuso sexual podem ser:

– A manutenção e/ou agravamento dos indicadores de curto/médio prazo

– Sintomas emocionais, tais como ansiedade, depressão, stress pós-traumático e sensação de vazio existencial

– Agravamento do conflito nas relações familiares ou afastamento das mesmas.

– A nível relacional e social, visão dos outros como perigosos, autoperceção de desamparo e vulnerabilidade, défice de competências sociais e relacionais, manifesta por ter poucos amigos e dificuldade em estabelecer relações afetivas e de intimidade.

– A nível comportamental, consumo de substâncias, comportamentos delinquentes ou de oposição. 

– A nível sexual, confusão sobre a orientação sexual, prostituição e/ou revitimização, que resulta da adoção de comportamentos hipersexualizados.

Tal como acontece em relação aos fatores de risco, também os sinais ou indicadores de abuso sexual infantil devem ser analisados de forma não isolada, e preferencialmente por um profissional. Contudo, se reconheceste aqui vários indicadores, talvez valha a pena ficares atento/a e procurares ajuda profissional, pois a serem verdadeiras as tuas suspeitas de abuso, quanto mais cedo se intervir para proteger a criança, melhor o seu prognóstico em termos de desenvolvimento saudável. 

Se tiveres alguma questão, deixa aqui nos comentários ou contacta-nos.  E vai passando por cá, vou-te falando sobre alguns assuntos que julgo que te podem interessar. 

Até breve, fica bem! 

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Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
Parentalidade Positiva e Consciente  
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