QUEM TEM MEDO DA COMPAIXÃO?

Sabes a música que os 3 porquinhos cantam no início da história? Reza assim “quem tem medo do lobo mau, do lobo mau, do lobo mau?”. Por estranho que possa parecer, há muitas pessoas que têm medo da compaixão. Como se a compaixão fosse o lobo mau. E deixam o lobo mau entrar, acolhem-no com chá e bolinhos e ficam em subserviente cavaqueira com ele, uma e outra e outra vez, por lhes parecer que é ele quem vai mudar alguma coisa na história de medo que a mente conta. Só que não.

 

O que é a compaixão?

Em primeiro lugar, só para que estejamos no mesmo registo, gostava de te dizer que a compaixão é uma competência. Logo, como qualquer outra competência (adicionar, dividir, escrever, andar de bicicleta), aprende-se. Ora isto são boas e más notícias. Como assim? A boa notícia é que se é uma competência, estás sempre a tempo de a adquirir. Basta que percebas quais são as suas componentes e como as podes adquirir e aperfeiçoar, até que possas dizer que és uma pessoa que pratica a compaixão – seja perante os outros ou perante ti mesmo/a. Se a praticares consistente e conscientemente, podes mesmo tornar-te um mestre compassivo. A má notícia é que podes, neste momento, fazer parte das pessoas que não teve esse modelo, e portanto, não aprendeu a praticar compaixão (consigo e/ou com os outros). 

E a compaixão é uma competência mesmo, mesmo importante nas nossas vidas. Porquê? Porque é através dela que conseguimos dar resposta adequada ao sofrimento, aliviando-o de forma eficaz e eficiente. E porque quando o fazemos, aprofundamos o vínculo (ou a qualidade da relação, se preferires chamar assim) com os outros ou connosco, dependendo do alvo compassivo. E ainda porque quando a praticamos, adquirimos pelo menos duas ofertas, que integram o “pacote” da compaixão: empatia e flexibilidade. 

Empatia, porque se praticas a competência de aliviar o sofrimento, é inevitável: tens de perceber primeiro onde está o sofrimento e qual a necessidade que não está a ser respondida e que o alimenta. Isto tanto pode acontecer em relação a ti como aos outros. Portanto, acabas por ser mais empático/a com o teu sofrimento e com o sofrimento alheio (ah, e outra boa notícia, by the way, é que não é só em relação ao sofrimento que ficas mais empático/a, é também em relação à alegria, à generosidade, à gratidão, ao amor, entre outros). 

Flexibilidade, porque se praticas compaixão, estás mais apto/a para lidar com os erros, as frustrações e os “defeitos” de cada um como vulnerabilidades, e não tanto como algo a punir e corrigir. 

 

Porquê ter medo da compaixão?

Dito isto, já deves estar a pensar que não faz grande sentido ter medo da compaixão. Se ela é uma competência fundamental para aliviar o nosso sofrimento e nos aproximar do contacto com o outro, porque é que tantas pessoas a acham perigosa e têm medo de ser compassivas com os outros, mas sobretudo, consigo próprias? 

À primeira vista não parece fazer sentido nenhum, pois não? Mas faz. E muito. Ou todo. Não estou com isto a dizer que este medo da compaixão é útil, estou apenas a dizer que faz todo o sentido para algumas pessoas temerem a compaixão. Não sei se já pensaste alguma vez sobre isso, mas habitualmente tememos o que não conhecemos. Nós humanos temos imenso medo do desconhecido: quando somos pequeninos temos medo do escuro, quando crescemos temos medo de mudar de emprego, de parceiro/a, de estilo de vida, etc. Enfim, preferimos muitas vezes um sofrimento que nos é familiar (porque já lhe conhecemos o sabor e os limites) e fugimos a sete pés da mudança. Mesmo que a mudança proposta seja apenas que possas cuidar melhor do teu sofrimento. É o que eu observo nas consultas de psicologia clínica que faço, e é também o que aparece na literatura acerca do tema. É sabido: o medo da compaixão está documentado e é um grande entrave, seja na vida quotidiana, seja no processo de desenvolvimento pessoal e/ou de psicoterapia. 

Mas porque é que este medo aparece, se pode ser a compaixão a grande aliada no alívio do sofrimento emocional e na promoção de relações interpessoais? 

Para algumas pessoas, quando se começam a trabalhar os atributos da compaixão, ativam-se também sentimentos relacionados com sofrimento emocional intenso, tais como perda, luto ou abuso. Ter passado por experiências emocionais intensas ou traumáticas sem ter tido a resposta compassiva adequada em fases precoces da vida pode ser motivo suficiente para ativar o medo da compaixão.

Outro motivo pelo qual as pessoas podem temer desenvolver a compaixão está ligado ao seu autoconceito, ou seja, à forma como se avaliam a si próprias – nomeadamente o facto de acharem que não são merecedoras de compaixão, mas sim de punição pelos seus erros. Nestes casos, a vergonha que sentem de si próprias ativa a crença de que não podem ou não devem ser compassivas.

Outro motivo é o julgamento que fazem da compaixão em si – em vez de a verem como uma competência útil, avaliam-na como uma fraqueza ou como sinónimo de indolência.  

E claro, o facto de haver experiências prévias consistentes e persistentes de violência, abuso, negligência ou ambivalência na relação de vinculação – sobretudo quando elas ocorrem numa fase precoce do desenvolvimento e estão associadas a figuras de vinculação importantes (como os pais, por exemplo) – são fatores que predispõem a mente para estar constantemente em modo de defesa, que é justamente antagónico ao modo compassivo. Por outras palavras, se o meu eu se encontra indefeso, desamparado, abusado, negligenciado ou sofre maus-tratos ativos (sejam físicos, psicológicos, sexuais ou outros), o meu cérebro não tem outra forma de processar isto que não seja a forma defensiva, de quem se encontra não seguro ou ameaçado. E se juntarmos a este modo mental, que já ativa em si a resposta de luta, fuga ou congelamento (e não a de calma e segurança que permite e alimenta a relação) o facto de não ter tido nestas figuras de vinculação o modelo para aprender a praticar a compaixão, então aí temos o caldo entornado. E confundimos a compaixão com o “lobo mau”. Não a conhecemos, por isso preferimos abrir a porta ao real “lobo” e dar ouvidos ao que ele diz.

 

E quem é o lobo mau, afinal?

O lobo mau é o criticismo, sobretudo o que é autodirigido, e que veste a pele de cordeiro. E nos faz acreditar que se nos fala nesse tom duro, rígido e agreste, é para nosso bem. E se não conhecemos outra forma, podemos realmente acreditar nesta. E lá estamos nós, a abrir a porta ao autocriticismo, a tomar chá com ele e a oferecer toda a nossa atenção e subserviência ao que ele diz. Acreditamos que se não o ouvirmos, então aí é que será o inferno. Acreditamos que é ele que nos faz melhorar, e que sem ele não podemos aprender a ser e fazer melhor. E pior ainda, acreditamos que nos falta alguma coisa para podermos aceitar-nos. 

E quando pensamos no que ele diz, percebemos que são críticas, duras críticas e chicotadas autoinfligidas, que na realidade nos deitam abaixo e mantêm a acreditar que não somos mesmo capazes de fazer melhor ou de resolver o que nos aflige. Mas ainda assim, temos medo de arriscar e tentar uma forma diferente de lidar com as nossas vulnerabilidades e sofrimento, e por isso continuamos com ele, em vez de dar uma oportunidade a desenvolvermos outras capacidades. 

O lobo mau está na nossa mente. Todos nós o temos lá, mas alguns de nós são possuidores de uma dose tóxica. 

A boa notícia é que a compaixão também lá está. Em alguns de nós está numa dose mínima, mas está. Nascemos naturalmente compassivos. Faz parte da nossa natureza. E isso faz-me pensar na conhecida fábula, atribuída a Esopo, que conta que um escorpião está a tentar atravessar um rio. Não o conseguindo fazer sozinho, o escorpião pede ajuda a uma rã. A rã responde-lhe que não o pode ajudar, pois teme que o escorpião a pique e a mate. Prontamente, o escorpião responde que o medo da rã não tem lógica, pois se o fizesse, mataria a rã e afogar-se-ia. A rã, acreditando no argumento lógico do escorpião, ajuda-o então a fazer a travessia, permitindo que ele suba para as suas costas. Contudo, no meio do rio, o escorpião picou a rã. Esta, ao sentir a picada, pergunta-lhe onde está a lógica do seu comportamento, afinal. E ele responde “eu sei que não tem lógica, mas essa é a minha natureza”. 

E quando te apercebes que tens mais relação com o lobo mau do que com a compaixão, essa atenção plena abre-te a porta a uma tomada de decisão mais consciente, menos automática e por isso mais responsável do que reativa. E que tal começares hoje mesmo a ser mais compassivo/a contigo e com os outros? E se deres conta que não fazes ideia de como o podes fazer, procura ajuda terapêutica. Principalmente se te deres conta que tens medo de ser compassivo/a – esse é habitualmente um excelente indicador de que precisas de desenvolver a compaixão. A terapia focada na compaixão poderá ser uma abordagem muito indicada para ti.

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Até breve, boa semana! 

 

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    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
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