“SOU UMA FRAUDE!” Ou será que sofres da Síndrome do Impostor?

Sentes-te uma fraude? E serás mesmo?

O pensamento “sou uma fraude” ocorre-te frequentemente? Tens a sensação de que estás a enganar os outros e que é só uma questão de tempo até que descubram realmente quem és? Pensares que és uma fraude traz-te sentimentos de tristeza, vergonha, culpa, angústia ou raiva contra a tua pessoa? Por outras palavras, sofres com esses pensamentos? Já recusaste oportunidades por achares que és uma fraude? Esforças-te imenso por achares que faças o que fizeres, ainda não está suficientemente bem? 

Ou, pelo contrário, permites-te enganar os outros para atingires os teus objetivos e ambições? Sentes que tens o direito de o fazer, e dizes para ti que afinal de contas, anda meio mundo a enganar o outro meio? Achas que mereces um tratamento especial e que por isso tens o direito de burlar, mentir ou manipular os outros? Que custe o que custar, doa o que doer e a quem doer, tens o direito de fazer o que achas que tens de fazer para chegares aos teus fins?

É esta a grande distinção entre seres de facto uma fraude, ou pelo contrário, sofreres de Síndrome do Impostor. 

Por definição, uma fraude consiste num comportamento que tem a intenção de enganar ou burlar alguém, para obter privilégios ou escapar a obrigações. Quero com isto sublinhar que quem assume um comportamento fraudulento não pensa de si próprio “sou uma fraude”, pelo menos, não da mesma forma que alguém que sofre de Síndrome do Impostor.

Enquanto que um burlão tem consciência de enganar os outros, a grande questão é que isso não provoca sentimentos de mal-estar que o demovam de o fazer, pois a intenção fraudulenta está lá. Pelo contrário, quem sofre de Síndrome do Impostor acredita que é uma fraude, mas não tem qualquer intenção de enganar os outros e só a ideia de o poder fazer provoca um mal-estar intenso e recorrente, que se faz acompanhar de comportamentos no sentido de evitar que tal aconteça. Não raras vezes, até optando por se prejudicar a si, em detrimento de causar dano ao outro. 

 

Olá, muito prazer! Sou a Síndrome do Impostor, já ouviste falar de mim?

Embora a Síndrome do Impostor não tenha um diagnóstico que conste dos principais manuais de estatística e classificação das perturbações mentais, é um fenómeno bastante comum, pelo que a sua designação não é recente, tendo a sua designação resultado do trabalho desenvolvido pelas psicólogas e investigadoras Pauline Rose Clance e Suzanne Imes em 1978. 

Tipicamente, esta Síndrome que pode afetar homens e mulheres, surge no contexto laboral, embora possa também ocorrer na dimensão dos relacionamentos pessoais, habitualmente associada a situações de sucesso ou êxito pessoal. 

Então, ao ter experiências de sucesso, a pessoa que sofre desta Síndrome tende a atribuir o mesmo a fatores externos a si, acreditando que se deve à sorte, ao acaso ou ao ter conseguido dissimular as suas fraquezas e enganar os outros. Esta visão de si própria reflete a sua baixa autoestima e autoconceito negativo, e tem importantes repercussões na vida da pessoa.

 

Quais são então os principais sintomas da Síndrome do Impostor?

– Medo intenso de falhar em algo, acompanhado da obtenção de resultados positivos ou de sucesso naquilo que era temido;

– Atribuição do sucesso a fatores externos a si: por exemplo à sorte, à pouca dificuldade da tarefa, à “distração” dos outros, etc. Ou seja, acredita que o seu sucesso se deve a tudo menos ao seu mérito, desvalorizando assim as suas conquistas e sucessos.

– Dificuldade em acreditar nos elogios frequentes dos outros, manifestando-se no medo de não conseguir manter as expectativas positivas que os outros depositam em si.

– Medo de que as pessoas descubram que não é suficientemente capaz, como pensam que é; medo de ser desmascarado/a.

– Focar a atenção mais nos pequenos insucessos, em detrimento dos sucessos.

– Sentir desilusão com os resultados atingidos, considerando que devia ter sempre mais.

– Comparações frequentes com os outros, avaliando-se como inferior.

– Desvalorizar os sucessos, considerando que o que alcança não é nada de especial.

– Acreditar que o fracassar indica ser uma fraude.

 

De onde vem a Síndrome do Impostor?

A Síndrome do Impostor pode resultar de vários fatores:

Autoconceito negativo: as pessoas que sofrem desta síndrome tendem a ter uma imagem distorcida e negativa de si próprias.

Níveis elevados de autocriticismo: tendência para se criticarem frequentemente e de forma severa pelas suas falhas.

Baixa autoestima: a pessoa gostaria de ser diferente do que considera ser, pelo que rejeita a forma como se perceciona. 

Comparação social: frequentemente a pessoa compara-se aos outros, quer do seu meio envolvente, quer nas redes sociais, concluindo acerca da sua inferioridade.

Crenças de desmerecimento: por ter uma visão negativa de si e uma baixa autoestima, a pessoa acredita que não merece o sucesso que tem.

Expectativas elevadas: esperar obter sempre os melhores resultados possíveis pode gerar um sentimento de pressão e aumentar a perceção de não ser capaz. 

– Promoção ou mudança de emprego: quando se vê confrontada com o sucesso ou mudança, despoleta-se a insegurança nas suas capacidades.

 

Consequências da Síndrome do Impostor:

Avaliar-se a si mesmo/a de forma negativa e julgadora, rotulando-se como uma fraude, não pode ter consequências positivas, sendo que as mais frequentes passam por:

– Manutenção na zona de conforto: a pessoa não arrisca, recusando novas oportunidades para progredir ou crescer.

– Isolamento social: com medo de ser desmascarada, a pessoa acaba por se afastar dos outros.

– Dificuldade em receber elogios ou gratificações dos outros: por acreditar que não merece.

Visão negativa do eu, dos outros e do mundo, com muita dificuldade em sentir gratidão e conexão aos outros.

– Procrastinação, perfeccionismo e autossabotagem: para evitar o confronto com o fracasso que acredita que terá, a pessoa acaba por procrastinar, ser exigente a ponto de prejudicar o seu funcionamento e ter comportamentos que sabotam o seu crescimento e impedem de saborear as suas conquistas.

Medo da exposição aos olhares e/ou julgamentos ou avaliação dos outros

Sintomas de ansiedade e depressão causados pelas tentativas constantes de agradar a todos os outros para obter aprovação social

Esforço intenso, no sentido de obter os bons resultados que acredita não ter capacidade de alcançar.

 

Como combater a Síndrome do Impostor?

– Falar com alguém sobre o assunto: estima-se que cerca de 70% das pessoas já se sentiu em algum momento da sua vida uma farsa. Ao partilhar esta experiência é possível sair do isolamento causado pela vergonha e culpa.

Lembrar que os pensamentos são acontecimentos mentais, não são necessariamente realidades, nem traduzem o que és – aprende a observar os teus pensamentos em vez de te deixares comandar por eles.  Podes fazer psicoterapia e praticar Mindfulness (lê mais sobre este assunto aqui).

Pratica a autocompaixão, que é uma boa forma de baixares a crítica interna, que só te deita abaixo e te impede de superares os teus medos e cresceres, saindo da tua zona de conforto. A compaixão é um antídoto para a ansiedade, mas a sua prática encerra alguns desafios (lê mais sobre esse assunto aqui).

 

Alimenta atitudes de generosidade e gratidão: que te ajudarão a sair do padrão da comparação social e da pressão que leva ao isolamento. Vê como aqui.

– Usa as redes sociais de forma consciente, para evitares os efeitos negativos da comparação social à escala global. Lembra-te que nem tudo o que vês é real.

Rodeia-te de pessoas com quem possas aprender e desenvolver as tuas competências. Ter um mentor é importante para combateres esse isolamento crítico e medo do falhanço.

– Comemora as tuas conquistas. Valoriza o que fazes e o teu conhecimento, em vez de prestares tanta atenção aos possíveis erros, que fazem parte da aprendizagem e sem os quais não seria possível progredir.

Conhece-te bem. Ao aprofundares o teu autoconhecimento vais ficar mais consciente dos teus pontos fortes e das tuas vulnerabilidades, o que te dá uma oportunidade incrível para as transformares em algo criativo e pessoal. Podes fazê-lo, por exemplo, através da psicoterapia. Vale a pena investires em ti, já que terás de lidar contigo a tua vida inteira. 

 

Espero que o artigo te tenha sido útil ou que o possas partilhar com alguém a quem consideres que pode ajudar. E já sabes, vai passando por cá. Vou falar-te mais sobre assuntos relacionados que te podem interessar.

Até breve!

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    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
    www.mindfulbe.pt
    sonia.araujo@mindfulbe.pt

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