“Tu não tens querer”: Sinais e Consequências do Narcisismo Parental.

Olá, estimo que estejas bem 😊 

Se acompanhas o meu trabalho sabes que defendo uma relação parental baseada na disciplina positiva e em ferramentas que permitem ampliar a consciência das atitudes e estilos parentais, para que mães, pais e educadores/as possam agir congruentemente com as suas intenções e valores. 

E é mesmo por esse motivo que venho hoje escrever sobre o narcisismo parental e as suas consequências, quer na relação parental, quer no desenvolvimento dos/as filhos/as.

 

Em que consiste o narcisismo parental?

O narcisismo é um termo que vem do mito grego de Narciso, o belo jovem que se apaixonou pela sua própria imagem refletida nas águas do rio, e que por esse motivo viveu infeliz e só, impossibilitado de se relacionar com outrem. 

Na parentalidade, o narcisismo verificado no pai ou na mãe (ou, mais raramente, em ambos) também impossibilita o desenvolvimento de uma relação saudável com os filhos, baseada no respeito mútuo ou igual valor (tão importantes na parentalidade positiva e consciente). E isto acontece porque pais narcisistas apresentam três caraterísticas de forma muito vincada:

  1. um sentimento de superioridade e grandiosidade face aos demais
  2. falta de empatia pelas necessidades alheias e
  3. necessidade exagerada e frequente de admiração e elogios por parte dos outros

Na prática, estas características implicam que pais narcisistas se comportam como se os outros (onde os filhos também se incluem) fossem inferiores a si, pelo que tendem a olhar apenas para o seu “próprio umbigo”, que é o mesmo que dizer que apenas consideram importantes os seus desejos, vontades, interesses e necessidades, pelo que esperam que os filhos apenas obedeçam cegamente, sem questionar o que quer que seja e, caso o façam, caso os filhos demonstrem algum sinal de autonomização ou individualidade, estes pais podem tornar-se bastante agressivos ou manipuladores. Estes pais esperam que os filhos e o resto da família e meio social os reconheça como superiores, alimentando-se dos elogios dos outros. Esta necessidade constante de reconhecimento e admiração por parte dos outros revela de facto o quanto a pessoa narcisista tem uma autoestima muito frágil, motivo pelo qual sente que tem de se impor e ser superior na relação com os outros. 

 

Sinais de narcisismo na relação parental

Há vários sinais de narcisismo parental ao qual podemos prestar atenção e que estão relacionados com as três características das pessoas narcisistas, que abordámos anteriormente:

1.Consideram os filhos como uma extensão de si próprios:

Têm a expectativa de que os filhos sejam aquilo que eles desejam, o que acontece sobretudo das seguintes formas: ou esperando que os filhos vivam aquilo que eles próprios gostariam de ter vivido e não tiveram oportunidade, ou esperando que os filhos continuem o seu projeto de vida, exibindo-os como troféus que servem para exibir e alimentar o seu ego parental.

 

  1. Promovem a dependência dos filhos:

Pais narcisistas lidam muito mal com qualquer tentativa de autonomização por parte dos filhos, pelo não só tentam impedir que os filhos descubram os seus interesses, necessidades e competências, como os proíbem de se autonomizarem, manipulando através da culpa e da inferiorização ou ridicularização. Por exemplo, um pai narcisista poderá ridicularizar o desejo manifesto pelo seu filho de seguir uma carreira profissional que ele não considere como suficiente para ser admirado pelos outros.

 

  1. Competem com os filhos pelo sucesso:

Ao invés de se sentirem felizes e realizados com o sucesso dos filhos, os pais narcisistas podem tornar-se invejosos e competirem com os próprios filhos. Isto pode parecer contraditório, já que os pais narcisistas gostam de exibir os filhos como troféus. Porém, só até um determinado ponto. A partir do momento em que os filhos sejam mais bem-sucedidos do que eles (avaliação que é a que consta da sua perceção), este sucesso passa a ser mal visto e cobiçado. Os filhos podem e devem ser bem-sucedidos, desde que não os ultrapassem. Se isso acontecer, o ego do narcisista fica ferido, pelo que as conquistas alcançadas pelos filhos são desvalorizadas. 

 

  1. Não são congruentes no seu comportamento:

Pais narcisistas tendem a comportar-se de forma diferente com os filhos, dependendo de saberem que estão a ser observados por alguém ou não. Assim, podem por exemplo ser muito desligados dos filhos quando estão a sós com eles, dando-lhes muita atenção positiva quando estão perante outros, o que fazem com o propósito de serem admirados como pais exemplares pelos outros. Ou, pelo contrário, podem tratar melhor os filhos quando estão sozinhos com eles e perante os outros criticar os filhos à sua frente, o que acontece para se vitimizarem pelos resultados ou comportamentos dos filhos que considerem não adequados para a sua imagem parental.

 

  1. São egoístas:

Têm em conta apenas os seus desejos e necessidades. O comportamento e atitudes dos filhos deverão estar ao serviço disso mesmo e não do melhor interesse do filho. Esta atitude está relacionada com a falta de empatia que pessoas narcisistas têm com os outros, motivo pelo qual desprezam o seu bem-estar e só se preocupam consigo próprios.

 

  1. São manipuladores e agressivos: 

Sempre que os filhos demonstrem vontades diferentes das suas ou tentem autonomizar-se e decidir por si próprios, não fazendo aquilo que os pais narcisistas deles esperam, estes pais são implacáveis, não olhando a meios para atingir os seus fins e isso pode significar o uso de várias “armas”, entre as quais se contam: a dramatização ou exagero das situações, a chantagem emocional, a vitimização, o tratamento do silêncio (ignorando os filhos), as acusações e comparações com os outros, tendo por base a manipulação dos sentimentos de culpa e vergonha nos filhos. Quando há mais do que um filho, os pais narcisistas frequentemente colocam um deles num pedestal, e o outro na “lama”, comparando-os sistematicamente, e prejudicando seriamente a relação dos irmãos. Outra estratégia muitas vezes utilizada é o gaslighting, uma forma de violência psicológica que pode no limite levar os outros a duvidarem da sua própria sanidade mental. 

 

  1. São exigentes e inflexíveis:

As coisas têm de ser feitas à sua maneira, quando e como eles assim o decidirem. Desta forma, os filhos não podem ser nem decidir o que são ou querem ser. Castigos, sermões, imposições, ameaças, chantagens e punições são estratégias usadas sob o pretexto de serem “pedagógicas” e criarem “calo” nos filhos. Mais uma vez, estas estratégias mais negativas são justificadas com base no seu ego parental, como provas de cuidado, amor e preocupação.

 

Consequências do narcisismo parental no desenvolvimento dos filhos

Por todo o exposto, as consequências do narcisismo parental são bastante negativas e não se restringem à relação parental, que claro está, fica marcada pela exigência, manipulação e tensão constante, assumindo-se como uma relação tóxica, que acontece sempre que alguém fica impedido de ser quem é ou de se desenvolver consoante as suas necessidades. 

As consequências do narcisismo parental alastram-se para o desenvolvimento emocional, psicológico e social dos filhos, sendo que estes apresentam com bastante frequência, resultado dos sinais explorados anteriormente:

  1. Baixa autoestima: é difícil para uma criança gostar de si própria quando é severa ou constantemente criticada ou punida ou limitada de conhecer os seus próprios interesses ou aspirações.
  2. Autoconceito negativo: uma criança que cresce sem oportunidade para explorar o meio, não desenvolve autonomia suficiente para se ver como capaz de fazer coisas sozinha, pelo que é difícil desapegar-se da visão da si própria como dependente e incapaz.
  3. Dependência/dificuldade em tomar decisões: é difícil decidir quando os outros decidem sempre por si e a impedem de o fazer, pelo que a criança filha de pai/mãe narcisista não tem grande oportunidade de aprender a confiar nas suas decisões.
  4. Baixa resiliência: a humilhação e desvalorização constantes fazem com que a criança cresça com a ideia de que não tem recursos para enfrentar os problemas do dia-a-dia.
  5. Vergonha interna: a criança aprende a assumir que tem algo em si que é vergonhoso e diferente dos outros, vendo-se como inferior aos demais.
  6. Culpa e subjugação: o sentir-se culpada por não corresponder às expectativas dos outros pode fazer com que se subjugue às vontades dos outros como forma de manter ou garantir a ligação afetiva com eles.
  7. Sensação de não ser suficiente/não ser merecedor: a permanente crítica e manipulação, a par da chantagem emocional a que os filhos de pai/mãe narcisistas são sujeitos podem fazer com que a criança se torne uma pessoa que tem esta sensação de que nada do que faz ou é está suficientemente bem.

Posto tudo isto, as crianças que crescem com pais narcisistas ficam altamente vulneráveis para vivenciarem relações interpessoais marcadas pela violência ou manipulação. Não raras vezes, estas crianças crescem e, incapazes de cortar o vínculo com o pai/mãe narcisista, vivem em função deles, tornando-se muitas vezes os seus cuidadores, reféns da sua vida. 

 

Sobreviver a pais narcisistas

É muito importante que quem cresceu com pais narcisistas perceba que não tem culpa e que não há nada de errado com o seu caráter. 

Importa que a pessoa que tem ou teve pais narcisistas aprenda a:

– Aceitar que não é possível mudar a relação e esperar ter uma relação equilibrada ou saudável com um narcisista. Assim, o “trabalho” da pessoa passará muito por aprender a:

– Estabelecer limites

– Estar preparado/a para ataques e acusações

– Desenvolver autocompaixão

Este trabalho poderá ser desafiante para percorrer sozinho/a e se assim for, procurar ajuda psicoterapêutica pode ser importante para ajudar a sarar feridas antigas que se refletem nas consequências que enumerei no ponto anterior.

Ah, só mais uma coisa: quem cresceu neste ambiente e aspira agora a ser pai ou mãe ou já o é poderá vir ou estar a enfrentar muitas dificuldades no seu papel parental, sobretudo se tiver esta consciência de que não pretende reproduzir os padrões comportamentais dos seus pais. Tendo a intenção e não tendo o modelo, pode ser realmente desafiante construir uma relação parental positiva. Se assim for, estudar sobre parentalidade positiva e consciente pode ser realmente útil – podes ler alguns artigos aqui no blog, como por exemplo este.

Espero que te tenha feito sentido e que possas partilhar com alguém a quem este artigo possa ajudar. E claro, se tiveres outras sugestões, deixa aqui nos comentários! Os temas nunca estão esgotados e gosto de contar com a tua participação 😊 

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    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
    www.mindfulbe.pt
    sonia.araujo@mindfulbe.pt

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