A EDUCAÇÃO SEXUAL LÁ POR CASA: é mesmo necessário falar sobre sexualidade às crianças?

Não é novidade que o tema da sexualidade ainda assusta muitos pais, mães e encarregados/as de educação. Na verdade, muitos de nós ainda tremem quando pensam em como explicar aos filhos como são feitos os bebés. E também é verdade que muitos pais e educadores acreditam mesmo que se conseguem “esquivar” à abordagem da sexualidade, passando ao lado de perguntas ditas “difíceis”, com respostas do tipo “isso não é para a tua idade”, “na escola explicam-te isso melhor”, “pergunta à tua mãe” ou ainda o clássico “agora não tenho tempo para responder, depois falamos”. 

Já reparaste como grande parte de nós tem mais dificuldade em responder à questão “como são feitos os bebés” do que à questão “porque é que existem marés” ou “porque é que morremos”? Curioso, não é? Provavelmente, a nossa grande dificuldade em falar sobre sexualidade não tem a ver com não dominarmos “tecnicamente” as questões, mas sim com preconceitos e tabus, com os quais provavelmente também crescemos… Porque quando não sabemos explicar algo meramente técnico ou científico, não temos grandes problemas em admitir que não sabemos e em nos disponibilizarmos para procurar a informação com eles, pois não? O problema aqui é o bicho de 7 cabeças que fazemos acerca da sexualidade…

 

Sabes que já fazes educação sexual com os teus filhos, mesmo que não queiras?

Contudo, deixar à escola a única responsabilidade na educação sexual das crianças e adolescentes é realmente uma falsa questão, já que todos os pais, mesmo aqueles que estão convictos que não abordam as questões da sexualidade com os filhos, o fazem – mesmo que seja por atos e omissões, em vez de palavras. Por exemplo, se coramos quando a criança pergunta o que é o sexo ou como foi concebida, estamos a passar uma importante mensagem não verbal acerca da sexualidade – passando a ideia de que se trata de algo não natural, e que não é apropriado falar enquanto se come um bife durante a refeição. Quando respondemos algo como “pergunta isso à professora” ou “isso não é para a tua idade”, estamos a passar a mensagem que não estamos disponíveis para comunicar acerca desta temática.

É natural que a criança passe então a procurar outras fontes de informação, sendo que os amigos e a internet passam a ser os principais “informadores”. Como é sabido, estas fontes estão repletas de erros, são incompletas ou podem não estar adequadas à idade dos nossos pequenos.

Além disso, o que pretendemos como pais é que os nossos filhos saibam que podem contar connosco, inclusivamente (e principalmente) para os assuntos difíceis. Se a nossa intenção é abrir portas na comunicação com os nossos filhos, então devemos assumir a educação sexual com a mesma importância e naturalidade que depositamos noutras áreas da educação.

Afinal de contas, e mesmo sem nos apercebermos disso, todos os dias educamos para a sexualidade. Como? Quando distribuímos (ou não) quem faz o quê lá em casa, em termos de tarefas domésticas, por exemplo; quando escolhemos os brinquedos que oferecemos, com o critério se é de “menina” ou “menino”; quando criticamos determinados comportamentos da criança, comparando-a com o que “seria suposto” a nível social (por exemplo, dizer a um menino que isso de chorar é coisa de menina), entre tantos outros exemplos… A questão é que estas mensagens, que nos “saem naturalmente”, são muitíssimo poderosas, por serem tão frequentes. E transmitem valores e papeis de género, que por sua vez serão mesmo muito importantes para as escolhas dos teus filhos. 

 

E mesmo assim, porque é que é tão difícil falar disto? E porque é assim tão importante?

Ainda assim, muitos de nós temem não saber como abordar o assunto, o que não é de estranhar, tendo em conta que muitos de nós foram educados no silêncio e no tabu a este respeito. Mas para falar destes assuntos não é preciso ser especialista. É preciso estar disponível para responder e para dizer a verdade. E muitas vezes, a resposta pode ser “não sei, vamos procurar essa resposta juntos” ou “sinto-me muito desconfortável em falar disso contigo agora, deixa cá ver o que te consigo dizer a esse respeito”. Ou então (abordagem que recomendo para quando não tens ideia nenhuma sobre o que responder, que linguagem usar, ou o que é que a criança já sabe ou não sobre o tema) “dizes-me o que é que já sabes sobre isso?” ou “ajudas-me a perceber melhor qual é a tua dúvida ou a resposta que procuras?”. 

Qual é a vantagem desta abordagem? Não é uma, são várias. Em primeiro lugar, mostramos aos nossos filhos que estamos disponíveis e que podem contar connosco para tudo (para mim, esta é das melhores vantagens, porque sabes o que penso sobre a importância da relação). Depois, mostramos que é importante que eles sejam conhecedores do seu corpo e afetos, para que possam tomar as decisões de forma mais informada e responsável. Além disso, a educação sexual feita de forma consciente é também um ótimo meio de prevenir o abuso sexual infantil (podes ler mais sobre os sinais de abuso sexual infantil neste artigo aqui) Como poderá o meu filho defender-se de uma situação de abuso sexual se eu me recuso a falar com ele sobre estas questões? Se eu não o ensinar que há partes do corpo que são privadas, e que há certos toques e comportamentos dos adultos que são abusivos, não lhe estarei a propiciar as melhores ferramentas para que se possa defender.

 

Devo esperar que a criança faça perguntas ou posso ir avançando?

Outra dificuldade habitualmente sentida pelos pais é quando falar sobre estes assuntos. Devem ou não esperar pelas perguntas da criança, ou devem antecipar-se a elas? Na realidade, não há necessidade de criar momentos específicos para esta abordagem, já que a toda a hora somos bombardeados com informações que nos permitem introduzir o tema – por exemplo, a filha da vizinha que engravidou, a mãe do coleguinha da turma que está grávida, os pais da amiga que se estão a divorciar, a irmã adolescente que agora namora, os variados “reality shows” que nos entram pela casa adentro, os anúncios hiper sexualizados a que os teus filhos estão expostos enquanto navegam na internet, etc.,etc., etc. – a lista é infindável, quando ficamos atentos ao papel que a sexualidade desempenha na nossa vida. Basta pensares que somos sexuados toda a vida  – ainda antes de nascer, já se planeiam coisas diferentes para nós, pelo simples facto de sermos meninos ou meninas, algumas mais marcantes do que a cor das paredes do quarto do bebé, como por exemplo, a escolha do nome que vai ter toda a vida associado à sua identidade.

A boa notícia é que basta portanto estares atento/a e aproveitar as ocasiões quotidianas que nos rodeiam. E quando o assunto é mais sério e as dúvidas persistem, podes sempre procurar o apoio de um profissional que te ajude – seja da área da medicina, enfermagem, psicologia ou sexologia. 

Por outro lado, não vejo grande vantagem em ficares à espera que os teus filhos te possam fazer perguntas específicas a este nível. Há imensas coisas que podes ir falando com a naturalidade inerente ao facto de estarem a acontecer nesse momento e com isso modelas em ti e na criança uma visão saudável e descomplicada do corpo e da sexualidade. Por exemplo, se o teu filho de dois anos está a tomar banho enquanto acaricia o seu pénis, tens aí uma excelente oportunidade natural (sem estares a preparar uma espécie de “aula” estruturada) para lhe dizeres algo deste género “olha, da forma como estás a mexer aí, só mesmo tu é que podes fazê-lo. Essa parte do corpo é privada, por isso os adultos só lhe podem mexer se for para te ajudar no bacio ou com alguma ferida que tenhas. Fazer festinhas e mimos nessa zona só tu podes fazer”. E já começaste a prevenir o abuso sexual infantil. 

À medida que vais abordando as questões da sexualidade, os bichos de 7 cabeças vão desaparecendo, e o que importa mesmo é que consigamos abrir portas para que os nossos filhos se sintam à vontade em falar connosco sobre estes assuntos, pois só assim conseguimos combater os tabus que ainda existem e que tanto contribuem para comportamentos de risco que podem acontecer na infância e adolescência e criar-lhes as condições necessárias para que tenham uma visão saudável e responsável da sexualidade, o que aumenta muito a probabilidade de serem felizes também nessa importante parte da vida. 

Se tiveres alguma questão, deixa aqui nos comentários ou contacta-nos.  E vai passando por cá, vou-te falando sobre alguns assuntos que julgo que te podem interessar. 

Até breve, fica bem! 

Newsletter M'BE

Subscreva já a nossa Newsletter e fique a par de todos os recursos e novidades M’BE.

    blank
    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
    www.mindfulbe.pt
    sonia.araujo@mindfulbe.pt

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *