A EDUCAÇÃO SEXUAL LÁ POR CASA: Responder a Perguntas Difíceis

Não é que eu tenha respostas mágicas. Não tenho e estou convencida que não existem. Mas tenho algumas reflexões e dicas que posso partilhar contigo, caso este tema te faça sentido, como sei que faz a muitas mães e pais por aí. E por isso neste artigo vou colocar-te algumas questões que espero que te ajudem a encontrar a resposta para a tua dificuldade em particular, pois não consigo dar uma solução geral que se aplique a todos os casos em particular. Assim sendo, vamos lá à descoberta? 

 

Como era contigo?

Sugiro que comeces por tentares lembrar-te de como era contigo, quando tu eras criança e depois adolescente. Como aprendeste o que era a sexualidade? Fazias perguntas aos teus pais ou a quem tenha cuidado de ti, ou preferias não falar desses assuntos? Os teus pais/cuidadores davam-te abertura para falarem sobre sexualidade, estimulavam o diálogo nesse sentido, ou pelo contrário diziam-te que esses assuntos “não são para a tua idade” ou “mais tarde falamos, agora não posso” ou ainda o clássico “vai perguntar isso à tua mãe, ao pai ou ao professor”. Ou será que eram eles que tinham a iniciativa de abordar o tema contigo? Se sim, como o faziam? Procuravam conhecer as tuas opiniões e sentimentos ou tentavam antes alertar-te para um conjunto de perigos que te poderiam acontecer, caso te atravesses a pensar nisso (e quanto mais a fazer, isso nem se fala!). 

É que a forma como a sexualidade foi tratada durante o teu desenvolvimento terá com certeza impacto na forma como lidas com ela agora. Não raras vezes, tenho clientes na consulta de sexologia com dificuldades sexuais que estão enraizadas na forma como a sua educação sexual foi feita.

Por isso, sugiro que reflitas um pouco acerca do impacto que a educação sexual que recebeste tem agora em ti, quer enquanto pessoa sexuada que és, e na vivência da sexualidade que tens, quer enquanto pai ou mãe, na abordagem que tens com os teus filhos.

 

E como é agora com o teu filho?

E agora que refletiste um pouco sobre como era quando eras tu no papel de filho/a, passa agora a pensar como és agora enquanto pai ou mãe, quando se trata de abordar a sexualidade. 

Por exemplo, tomas tu a iniciativa de abordar a sexualidade, ou ficas à espera que o teu filho o faça? O que é que tu englobas no tema da sexualidade? Quando pensas nisso, achas que a educação sexual tem a ver sobretudo com o educar para relações sexuais protegidas de infeções sexualmente transmissíveis ou de gravidezes não planeadas? Ou vês a educação sexual como algo que toca toda a forma de ser e estar do teu filho, e que abarca aspetos desde a relação que tem com o corpo, passando pela identidade de género, expressão da sexualidade, relacionamentos afetivos (amorosos e não só), orientação sexual, sexo, parentalidade, etc. etc., etc.? Sugiro que, caso vejas a educação sexual como limitada a falar de métodos contracetivos e relações sexuais, leias o meu artigo que escrevi em novembro, sobre a importância de falar sobre sexualidade às crianças, aqui

Quando e se for o teu filho a colocar-te alguma questão que para ti seja difícil responder, o que tendes a fazer? Coras? Mudas de assunto? Dizes uma piada? Remetes a conversa para um momento mais solene, que terá de ser adiado? Remetes a resposta para outra pessoa? Ou respondes?

E se respondes, como o fazes? Despachas o assunto, e se puderes omites parte da informação ou mentes sobre a informação porque não consegues saber como dizer a verdade? Ou tentas aprofundar o que o teu filho já sabe sobre o assunto, para perceberes de onde podes começar a resposta? Esta é uma dica que te deixo desde já: quando não fazes ideia de por onde começar, ou quando precisas de tempo para organizares o teu pensamento, ou quando tens a intenção de ajudar o teu filho a chegar por si próprio à resposta, podes simplesmente, devolver-lhe a pergunta. É muito simples. A criança pergunta-te algo e tu dizes “e tu, o que pensas sobre isso?” ou “e tu, o que sabes sobre isso” ou “e tu, o que te parece que isso é?”. Esta técnica chama-se pergunta espelho e permite a quem foi questionado ficar a saber melhor qual o nível de informação que o outro (quem fez a pergunta) já tem sobre o assunto. E não tem só vantagens para ti. Também tem vantagens para o teu filho, que tem a oportunidade de clarificar e organizar melhor a sua própria dúvida e informação que já tem sobre o assunto. E ainda ganhas um bónus, que é: acabas de mostrar ao teu filho que estás presente e disponível para pensar com ele sobre o assunto. Ou seja, desobstruíste os canais de comunicação. Tiraste o peso do tabu que ainda paira sobre o tema sexualidade. Passaste a imagem de que a tua intenção é acompanhar e não moralizar ou ditar o que quer que seja. E o teu filho percebeu que da próxima vez que tiver uma questão, pode contar contigo e não precisa de procurar às escondidas na internet ou nos amigos (que por vezes também não sabem). Portanto, ambos ganham, e por isso a tua relação parental também ganhou conexão.

 

Desde que idade consideras importante abordar a sexualidade com o teu filho?

Outra questão que tenho para te colocar, no sentido de ajudar a clarificar como lidas tu com o teu papel de educador para a sexualidade, é a partir de que idade é que achas que deves começar a falar com o teu filho sobre o assunto? 

Caso a tua resposta instintiva seja “na adolescência”, ou “nunca”, sugiro que leias o artigo que mencionei acima e que possas refletir um pouco sobre como é que a sexualidade se manifesta na tua maneira de ser, de estar, de vestir, de te aproximares dos outros, no trabalho que tens, nas tuas tarefas diárias, entre outros aspetos do teu quotidiano. E estou certa que vai ficar claro para ti que a sexualidade começa muito antes da adolescência – eu diria até antes do nascimento, quando quem gera a nossa vida começa a planear que nome, que roupas, que cores vai ter o nosso quarto quando nascermos, entre tantas e tantas outras coisas. E é por isso que somos sempre sexuados, desde a nossa genética até à forma como falamos, andamos e olhamos para os outros.

E é também por isso que gostaria que considerasses que é fundamental abordar a sexualidade de forma positiva e intencional desde que a criança nasce. Até porque, mesmo sem te dares conta, já estás a educar para a sexualidade, mesmo quando respondes “isso não é para a tua idade”, mesmo quando optas pelo silêncio. Estás a passar uma mensagem importante, caso o faças: de que a sexualidade não é natural, e como isso fica a mensagem subliminar de que ela pode ser algo errado, sujo ou feio. E quando isso acontece, há maior probabilidade de o teu filho saber que não pode falar contigo sobre esse assunto e portanto de procurar informação noutros locais e pessoas – que podem ser menos credíveis. Se isso acontecer, há também uma maior probabilidade de o teu filho ter comportamentos de risco associados à vivência da sexualidade. Simplesmente porque o fruto proibido também é o mais desconhecido.

 

Que idade tem o filho?

Sugiro também que adeques as respostas que dás à idade, ou melhor dizendo, ao desenvolvimento do teu filho. E para isso, a tua linguagem deve ser clara e adaptada ao seu nível de compreensão, mas correta. Não há necessidade de andar a inventar termos para coisas que já têm nomes, não te parece? É que ao fazê-lo, poderás estar a passar uma ideia de não naturalidade em falar sobre o que for que esteja em questão. Por exemplo, isto acontece muito em relação ao nome dos genitais, que em vez de vulva e pénis são muitas vezes apelidados de “pipi” ou outros que, alegadamente, são mais “bonitos”. Claro que compreendes que isto é uma falsa questão, pois se formos falar de orelhas, sobrancelhas ou joelhos não estamos propriamente preocupados se o nome é bonito, pois não? Claro, aposto que nem nunca tal te tinha ocorrido “ah, e tal, que nome vou eu dar às sobrancelhas para ensinar essa parte do corpo ao meu filho?”… hmmm, não me parece.

Por outro lado, se o teu filho é ainda uma criança, é muito importante que possas de alguma forma ilustrar ou mostrar o que estás a falar – por exemplo através de livros ilustrados sobre sexualidade e educação sexual, podes até escolher de acordo com a faixa etária do teu filho.

Tem ainda em conta que por vezes as crianças perguntam o significado de termos por pura curiosidade, sem necessariamente saberem que essas palavras podem estar associadas à sexualidade ou ao sexo. Por exemplo, se uma criança de 3 anos te perguntar o que é um orgasmo, sugiro que lhe digas algo que explique que é algo que acontece quando uma coisa é muito, muito boa e sentimos muito prazer, como por exemplo, quando comemos um chocolate (ou outra coisa que a criança adore) ou quando ouvimos uma música que gostamos muito e nos arrepiamos. Até podes acrescentar que essa palavra se usa mais para essas coisas boas que sentimos quando namoramos. Depende da criança, e das perguntas que ela te for fazendo. O essencial é responderes ao que a criança está a perguntar, e não dizeres tudo o que sabes sobre o assunto. É tal e qual como na matemática. Não vais explicar o que é uma multiplicação sem a criança saber o que é um número, pois não? É que muitas vezes a nossa dificuldade em responder tem sobretudo a ver com o tema ser ainda tabu para nós. 

Por outro lado, se o teu filho é adolescente ou pré-adolescente, sugiro que procures saber o que ele já sabe sobre o assunto, utilizando a pergunta espelho que te falei há pouco e vás por aí. Claro que também podes ter livros e ilustrações que te ajudem, e o adolescente também já tem outra capacidade de dominar a linguagem e o raciocínio lógico, que te permitem falar com mais facilidade. E se o teu principal medo é se falares sobre o assunto estás a aguçar a sua curiosidade e quem sabe a aumentar a probabilidade de o teu filho iniciar a vida sexual mais cedo, desengana-te: o que a investigação na área mostra é exatamente o oposto, ou seja, quanto mais acesso a uma educação sexual positiva, mais os jovens tendem a adiar o início das relações sexuais e, quando o fazem, assumem menos comportamentos de risco.

 

O que é para ti uma pergunta difícil?

Por fim, convido-te ainda a refletir no que significa para ti uma pergunta difícil ao nível da sexualidade. Será uma pergunta à qual não sabes responder porque não dominas o assunto? Porque é algo muito técnico? Ou será algo que não sabes como responder? Por ser para ti um assunto delicado, que de alguma forma tens dificuldade em falar?

Se tivesse de apostar, apostaria na segunda hipótese. E sabes porquê? Porque também é muito difícil explicar as marés, o universo, os buracos negros, a eletricidade, ou outros assuntos complexos, e não é com isso que vejo os pais aflitos ou a corarem quando a criança pergunta. 

As “perguntas difíceis” sobre sexualidade não serão aquelas às quais não temos conhecimento – pois para essas, provavelmente temos logo acessível a resposta verdadeira e possível, que é “não sei”. Por exemplo, se o teu filho perguntar o que é uma parafilia, ou o que significa ter uma polução noturna, é bem provável que não saibas o que significam esses termos, se não és da área. E está tudo bem. Não é grave não saberes, não é isso que faz com que seja mais provável o teu filho ter comportamentos sexuais de risco. O que o deixa desprotegido é não estares disponível para o acompanhar e orientar nessa área da vida. Por isso, a minha sugestão quando não sabes responder é que digas exatamente isso: “não sei responder”. E claro que podes ir procurar a resposta com o teu filho. Isso mostra-lhe que estás presente e disponível.

Mas se a tua dificuldade tiver a ver com o como responder ou com o que dizer, sugiro que digas também a tua verdade. Não é problema começares por dizer que para ti é difícil falares sobre esse assunto, ou que não sabes muito bem como explicar. E depois podes começar a fazer perguntas espelho. Quando deres por isso, já vais estar a dialogar sobre o assunto com o teu filho. Para isso acontecer, terás de cultivar a aceitação das tuas dificuldades, e assumir com honestidade e abertura que te é difícil falar sobre isso. Podes até aproveitar esse momento para partilhares com generosidade com o teu filho um pouco da forma tu foste educado/a nesta área. Lembra-te que, mais importante do que seres especialista na área, e teres a resposta na ponta da língua, o fundamental para criares uma porta aberta para a comunicação sobre sexualidade é estares disponível para isso. 

Pode ajudar-te leres um pouco sobre parentalidade positiva e consciente, por isso sugiro-te um outro artigo que podes encontrar aqui

E se estiveres a passar por uma situação complicada, lembra-te que ninguém sabe tudo e é nesses momentos que poderá fazer sentido procurar ajuda profissional.

Espero ter ajudado a clarificares quais são as tuas dificuldades e porque motivo as tens e o que podes fazer para lidares com elas. Tens dúvidas? Deixa aqui nos comentários. E se conheceres alguém a quem este artigo possa interessar, por favor partilha. E já sabes, vai passando por cá, vou falando de temas que te podem interessar. 

 

Até breve, fica bem! 

Newsletter M'BE

Subscreva já a nossa Newsletter e fique a par de todos os recursos e novidades M’BE.

    blank
    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
    www.mindfulbe.pt
    sonia.araujo@mindfulbe.pt

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *