Devo ou Não Elogiar o meu Filho?

Olá, estimo que estejas bem e com muita energia e determinação para viver este ano acabadinho de estrear!

Se conheces ou tens acompanhado de alguma forma o meu trabalho, sabes que sou psicóloga e facilitadora de educação e parentalidade positiva e consciente. Hoje gostaria de te falar um pouco sobre as consequências de elogiares o/a teu/tua filho/a.

 

O elogio resulta?

Ora bem, depende do teu objetivo, da tua intenção. Se estás a usar o elogio no sentido de recompensar a criança por algum comportamento ou atitude que ela teve e que tu pretendes reforçar ou manter, não há dúvidas que sim. Sabemos há muito tempo que quando pretendemos modificar um comportamento, uma forma eficaz de o fazer é através da manipulação das consequências que o mesmo assume para o seu autor. 

Por outras palavras, se uma criança recebe uma consequência que lhe é agradável, contingente a um dado comportamento, tenderá a repetir esse mesmo comportamento. A consequência funciona como um reforço do comportamento. 

Por outro lado, se a consequência que a criança recebe em função do comportamento que teve é desagradável para si ou não existe nenhuma consequência, o comportamento tenderá para a diminuição ou extinção.

E claro que isto te pode ser extremamente útil. Não é à toa que estratégias como recompensas e castigos são tantas vezes utilizados numa educação ou parentalidade mais “tradicional”, digamos assim. Porque muitas vezes interessa ao educador modificar aquele comportamento da criança em particular. 

Contudo, podemos pensar que a médio ou longo prazo poderás não estar assim tão interessado/a em fazer que a tua criança comece a comportar-se de determinada forma, para ganhar recompensas ou evitar castigos, verdade? Poderás preferir ter uma relação de conexão com esta criança, que te permita educá-la de acordo com os teus valores, sem necessidade de lhe “acenar com a cenoura” ou ameaçar com castigos, de cada vez que ela tem um comportamento que tu não aprecias.

Nesse sentido, é importante teres presente que, se por um lado é verdade que recompensas e castigos servem bem o propósito de modificação comportamental, por outro lado também é verdade que cada vez que os usamos estamos a potenciar que a aprendizagem da criança se concentre nos ganhos (ou perdas que evita) e isso tem consequências, para a própria aprendizagem dos valores (que ficam desfocados) e para a relação que vais conseguir construir com a criança. 

O que é um elogio? 

Então, parece-me também importante sublinhar que o elogio é uma forma de recompensa. Um elogio é um comentário que avalia algo em relação à criança (“que gira estás com esse vestido”) ou ao seu comportamento (“que bem que te portaste na escola hoje”). E como a avaliação que faz é positiva, chamamos-lhe elogio e não crítica, mas se reparares, um elogio é também uma crítica (embora positiva). 

Sendo uma avaliação positiva, o elogio pode provocar em quem o recebe desconfiança, negação imediata, ameaça, foco nos pontos fracos, ansiedade de desempenho e até sensação de se estar a ser manipulado. A criança que o recebe poderá sentir-se avaliada e pressionada a manter esse desempenho, aumentando a sua ansiedade e dependência face à opinião dos outros.

Por outro lado, também te quero dizer que socialmente estamos muito formatados para reproduzir aquilo a que se pode chamar o erro educacional fundamental, que consiste em criticar ou punir aquilo que não gostamos, dando atenção e conotação negativa ao erro, ao mesmo tempo que ignoramos, não damos atenção ou acreditamos que até pode ser prejudicial notar o que nos parece bem – “não fez mais que a sua obrigação”, ouvimos dizer tantas e tantas vezes. 

Quando caímos neste erro educacional, sem querer estamos a reforçar exatamente o que não queremos reforçar, porque é a isso que estamos a prestar atenção. Lembra-te que para a criança é mais seguro receber atenção (mesmo que seja negativa) do que ser ignorada. E é exatamente assim, tão simples quanto isto, que muitas vezes o tiro nos sai pela culatra. 

 

E então? Em que ficamos? Devemos elogiar ou não?

O que me ajuda muitas vezes a manter o foco numa parentalidade e educação assentes no Mindfulness e na disciplina positiva é recordar-me que, para o desenvolvimento integral e saudável da criança, o que ela precisa mesmo, mais do que sentir-se avaliada (ainda que de forma positiva), é sentir-se vista, tida em conta, reconhecida. 

 

É essa perceção de que está a ser importante para alguém (neste caso para ti, que és com quem ela conta) que vai contribuir para que a sua autoestima e autoconceito se desenvolvam de forma saudável. 

 

E quando digo saudável, quero sublinhar principalmente duas coisas:

– que a sua autoestima e autoconceito não fiquem exclusiva ou extremamente dependentes da avaliação dos outros, potenciando assim ansiedade social na criança e fazendo com que esta não se permita descobrir quem é, para poder estar focada em agradar aos outros (e acho que não preciso de te dizer as mil maneiras como isso pode prejudicar a vida de alguém).

 

– que a sua autoestima e autoconceito sejam equilibrados e ajustados à realidade – isto é, importa que a criança perceba e aceite com naturalidade que há coisas que ela faz com maior dificuldade e outras com menos dificuldade, e que isso não define o seu valor pessoal.

 

Então, resumidamente, para que possa ser útil neste sentido, o elogio não deve ser avaliativo – por esse motivo, há quem prefira chamar-lhe reconhecimento, para melhor o distinguir.

 

O reconhecimento é descritivo (e não avalia, como o elogio). Por exemplo, em vez de dizeres ao teu filho “hoje portaste-te mesmo bem na escola” – o que é um elogio, na medida em que estás a julgar o seu comportamento, ao mesmo tempo que não especificas a que te estás a referir, e portanto, nesse sentido, também poderás estar a passar ao lado da oportunidade de o fazer entender qual o comportamento a que te referes – poderás descrever aquilo que observas, assim “hoje fizeste até ao fim as tarefas propostas pelo professor e não trouxeste fichas para terminares em casa”. 

 

Consegues ver a diferença? O reconhecimento não avalia, apenas descreve. E ao descrever, em vez de avaliar, as vantagens são permitir à criança:

– perceber que estás a olhar para ela “com olhos de ver” – sente-se reconhecida e importante para ti, em vez de avaliada ou julgada por ti (e isso é maravilhoso para reforçares a tua relação de conexão com ela);

– ter autonomia suficiente para não regular o seu comportamento pela avaliação ou julgamento que os outros dele fazem;

– perceber quais os comportamentos específicos e concretos que são esperados, em vez de apenas lhe dizermos um vago e confuso “portaste-te bem”. 

– regular mais autonomamente os seus comportamentos, assumindo responsabilidade pessoal pelos mesmos (que é uma competência para a vida). 

 

Por outro lado, para ti também tem vantagens:

– liberta-te do papel de “acenar com a cenoura” ou “ameaçar com castigos”;

– liberta-te da sobre proteção, ao perceberes que não tens de dar a ideia ao teu filho que ele faz tudo bem ou que tem de ser o melhor em tudo (porque não tem)

– permite-te relaxar e investir numa relação mais assente na colaboração e conexão do que na avaliação e controle constantes.

 

E por fim, mas não menos importante: o elogio foca-se sobretudo no resultado, ao passo que o reconhecimento se foca no processo. E isso, por si só, é muito vantajoso, já que permite valorizar o esforço, o empenho, a perseverança e não apenas um resultado ou classificação final.

 

Libertemo-nos pois deste desejo constante de avaliar e sermos avaliados, e conseguiremos sofrer menos nesta vida. Quanto mais dependeres dos elogios, “likes” ou similares que vêm de fora, maior a sensação que te falta algo. Estou certa que percebes de que forma isso não é saudável nem desejável na educação do/a teu/tua filho/a. E podes ler mais sobre motivos pelos quais sofremos demais, clicando aqui.

Até breve, vai passando por cá para leres mais sobre este e outros assuntos que te podem interessar, e se te fez sentido o que leste, ou conheces alguém a quem possa ajudar, partilha este artigo com as tuas redes. Eu agradeço 😊

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    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
    www.mindfulbe.pt
    sonia.araujo@mindfulbe.pt

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