GIRA O DISCO E TOCA O MESMO: COMO LIDAR COM PENSAMENTOS INTRUSIVOS

Todas as pessoas podem ter pensamentos intrusivos, mas nem todas vão lidar com eles da mesma forma. E é precisamente aí, na forma como se lida com estes acontecimentos mentais, que reside a grande questão. E é por isso mesmo que para umas pessoas eles entram a 100 e saem a 1000 à hora, enquanto que para outras, eles se tornam obsessivos e podem implicar a adoção de comportamentos menos saudáveis ou disfuncionais. 

 

O que são pensamentos intrusivos?

Os pensamentos intrusivos são pensamentos indesejados e involuntários. Eles não dependem da vontade de quem os tem – aliás, grande parte do problema vem exatamente daí: quem os tem preferia não os ter, se pudesse escolher, já que eles são habitualmente de conteúdo negativo e/ou aversivo. No entanto, quem os tem não os escolhe ter, motivo pelo qual eles são involuntários e por isso mesmo, difíceis de controlar. 

Ironicamente, a melhor forma de controlar os pensamentos intrusivos é abrir mão do controlo. Ou seja, deixá-los estar. Só que não é fácil fazê-lo quando a pessoa acredita que estes pensamentos são realidades ou que dizem algo sobre o seu caráter. Mas já lá vamos.

Antes disso, quero apenas clarificar que os pensamentos intrusivos podem surgir na forma de pensamentos, com conteúdo verbal, (como por exemplo, alguém que vai a conduzir um carro pensar “e se eu agora abrisse a porta e me atirasse?”) e/ou podem surgir como imagens ou representações gráficas (por exemplo imaginar-se a rebolar na estrada e a ser atropelado). Assim sendo, eles podem surgir como “flashes” ou ficar como ruminações, ou seja, pensamentos que estão constantemente presentes, como que a serem “mastigados” pela mente, e não saem da cabeça – gira o disco e toca o mesmo!

Os pensamentos intrusivos são também inúteis ou disfuncionais, já que não apontam nenhuma função ou solução útil à pessoa. Uma vez que o seu conteúdo é negativo e aversivo, podem elicitar emoções desagradáveis e intensas, tais como medo, raiva ou aversão. E por norma surgem em situações inesperadas ou desadequadas, como por exemplo, no meio de uma reunião ou de uma cerimónia.

 

Penso… logo sou? 

De todo! Os pensamentos intrusivos não dizem nada sobre o caráter ou personalidade de quem os tem. Eles são apenas pensamentos, e pensamentos são acontecimentos mentais. Não são realidades.

E é exatamente por esse motivo, por não dizerem nada sobre a pessoa que os tem, que podem ser considerados intrusivos. Senão, vejamos o exemplo: tentar passar ao lado de alguém que está a andar com dificuldade e a obstruir a minha passagem pode desencadear o pensamento intrusivo “empurra esta pessoa pela escada abaixo”. No entanto, há uma enorme diferença entre pensar e querer fazer – o facto de o pensar não significa que o deseje e muito menos que o faça. 

 

Exemplos de pensamentos intrusivos e perturbações associadas

Os pensamentos intrusivos giram habitualmente em torno de conteúdos negativos ou aversivos, assustadores ou dependentes de juízos morais, tais como:

– pensamentos violentos: pensamentos que dizem respeito a formas de provocar dor ou morte, como por exemplo, pensar em esfaquear ou asfixiar alguém próximo ou a si mesmo/a.

– pensamentos sexuais: relacionados com práticas violentas ou moralmente condenáveis dentro dos padrões morais de quem as julga.

– memórias indesejadas, fobias específicas, preocupações persistentes ou pensamentos relativos a relacionamentos interpessoais com pessoas amadas, entre outros.

Estes pensamentos tendem a surgir muitas vezes integrados em perturbações mediadas pela ansiedade, tais como a perturbação obsessivo-compulsiva, a perturbação de ansiedade generalizada, a perturbação de pânico, fobia social ou outras fobias específicas, entre outros quadros clínicos.

 

O que não fazer ao lidar com pensamentos intrusivos

Acredita, há pelo menos três formas através das quais as pessoas podem estar a levar a sérios estes pensamentos, sem ter disso consciência, e que no fundo representam tudo aquilo que não deve ser feito para lidar com eles: 

verificar o conteúdo dos pensamentos ou ter comportamentos compulsivos para lidar com os pensamentos: por exemplo, desligar 10 vezes o gás para se assegurar que o fez;

reassegurar-se, adotando comportamentos de segurança para evitar que o conteúdo dos pensamentos aconteça: por exemplo, retirar as facas de uso por pensar que poderia esfaquear-se ou esfaquear alguém amado;

suprimir, tentando evitar ou tirar os pensamentos da mente: quando tenta evitar, para monitorizar o próprio pensamento e verificar se pensou ou não, tem de trazer o pensamento à consciência, pelo que não resulta.

 

Como lidar com os pensamentos intrusivos

Como já referi anteriormente, os pensamentos intrusivos são bastante frequentes e quase todas as pessoas os têm. O que vai marcar a diferença nos graus de sofrimento e de incapacitação que produzem é a forma como a pessoa se relaciona com eles:

– se a pessoa lhes dá “crédito”, eles irão acentuar-se e persistir: isto acontece quando se confundem pensamentos com factos ou realidades

 – se a pessoa os interpreta como pensamentos apenas e não lhes atribui nenhum outro significado, o mais provável é que desapareçam com a mesma facilidade e rapidez com que apareceram.

Por outras palavras, os pensamentos intrusivos não são para levar a sério. O melhor que pode ser feito é serem observados meramente como acontecimentos mentais que são. Porque há uma grande diferença entre pensamentos e realidades. Tal como há uma grande diferença entre a beira da estrada e a Estrada da Beira. Parece a mesma coisa, mas não é.  E para isso pode ajudar muito praticar Mindfulness – podes ler mais nos artigos que escrevi aqui no blog:

“Mindfulness? O que é que eu ganho com isso?” 

“Meditar não é para mim! Ainda posso praticar mindfulness?”

“NÃO PRATIQUES MINDFOOLNESS! Sobretudo, se quiseres praticar Mindfulness.”

 

Além da prática de Mindfulness, poderá ser útil lembrar que:

– um pensamento não é uma realidade;

– há uma grande diferença entre pensar e fazer;

– pensar em algo não significa que o vá fazer nem que o queira fazer;

– está tudo bem em deixar estar o pensamento, não tenho de me livrar dele;

– partilhar estes pensamentos com alguém da minha confiança irá ajudar a desvalorizar;

– lembrar que estes pensamentos nada dizem acerca da vontade ou do caráter de quem os tem, já que, se assim fosse, a pessoa não tentaria tão afincadamente ver-se livres deles, pelo contrário.

E se apesar de tudo isto, o sofrimento persistir e estes pensamentos começarem a provocar limitações na vida quotidiana, está na altura de procurar ajuda psicológica.

 

Vai passando por cá. Vou falar-te mais sobre este e outros assuntos que te podem interessar.

Se te fez sentido e achas que pode fazer sentido a alguém, partilha este artigo. 

Até breve, boa semana!

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    Fundadora M'BE Mindful Butterfly Effect
    Psicóloga Clínica | Terapeuta Sexual |Formadora | Facilitadora de
    Parentalidade Positiva e Consciente  
    www.mindfulbe.pt
    sonia.araujo@mindfulbe.pt

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